Turismo

Xingu: Pesca atrai turismo de aventura

Roberta Mathias
| Tempo de leitura: 4 min

Após consolidar-se como uma região propícia para a pesca, o Alto Xingu, no Mato Grosso, começa a despontar também como uma opção para o turismo fotográfico e de aventura. Há também, ainda incipiente, o turismo cultural, com a proximidade das comunidades indígenas, no Parque Xingu. O roteiro é restrito a raras operadoras, como a FreeWay Brasil, que já leva grupos em parceria com o governo do Estado do Mato Grosso.

O que está ocorrendo, naturalmente, é o crescimento de pessoas com interesse em conhecer a região a partir de contatos com pescadores e outros visitantes ocasionais. Durante a temporada de pesca, que teve início em março e será fechada no próximo dia 31, é comum um número intenso de pescadores circulando nas águas dos rios Kuluene, Sete de Setembro e Xingu. Porém, com a procura de outros visitantes, proprietários de pousadas, como o bauruense Atá Catalan, dono das pousadas Rancho Xingu e Mutum, começam a formar grupos também para o período de férias.

Catalan pretende manter a linha que desenvolve em seus ranchos, enfatizando a conscientização, em um turismo ecológico e fotográfico. Ele salienta que é possível ter contato com as comunidades indígenas, porém é necessária a autorização da Fundação Nacional do Índio (Funai), o que exige antecedência.

Os atrativos mudam conforme a época, mas é certo que a fauna e flora diversificadas estimulam o interesse dos visitantes. O Estado do Mato Grosso divide seu território em dois grandes biomas, Amazônia e Cerrado. No Alto Xingu predomina o bioma Cerrado, onde é possível conferir animais selvagens e uma rica paisagem. Passeios de barco, acampamento selvagem, trilhas ecológicas e a possibilidade de descansar longe das neuroses da vida urbana são os principais atrativos da região.

Porém, muitas pessoas vêm como arriscado o turismo intensivo em regiões preservadas, principalmente sem um plano de desenvolvimento turístico. “A preservação da natureza é muito importante neste século e aonde não tem dinheiro não há preservação”, enfatiza o fotógrafo de cinema Cezar Elias, do Rio de Janeiro, que visitou o Xingu em julho para pescar. Sua preocupação baseia-se no comportamento do turista em vários locais. “Eu já estive também em outros países, como no Canadá, onde é bem diferente; aqui não há punição, o Brasil precisa evoluir muito”, acrescenta.

Apesar de suas colocações, Elias valoriza a beleza local, principalmente dos rios e lagos. “O rio cercado por suas margens, a formação das nuvens mudam o cenário, há também os animais. Filmei pegadas de onça, antas e também pesquei”, recorda Elias, que capturou vários tucunarés, traíras, cachorras e bicuda.

As pesquisadoras Ana Lúcia Hazin, Cleide Galiza de Oliveira e Rejane Pinto de Medeiros, da Fundação Joaquim Nabuco, de Recife (PE), priorizam a participação das comunidades locais, inclusive no uso dos moradores no receptivo turístico. “É de fundamental importância a atenção ao nativo. Não se deve ignorar o ser humano que vive na região hospedeira e que participa diretamente da recepção e do atendimento ao visitante. A valorização da mão-de-obra local abre espaço para investimento em qualidade, com a conscientização acerca do papel representado, por cada um, nesse processo competitivo”, apontam em estudo, disponível no site da instituição.

O processo de globalização favorece a divulgação das belezas brasileiras, como as matas, praias e grutas, que vão sendo “descobertas” por viajantes alternativos. “São esses que abrem caminho para uma exploração desregrada, indisciplinada e devastadora”, sinalizam as pesquisadores.

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Roteiro fotográfico

A região do Alto Xingu é também um excelente lugar para a prática do turismo fotográfico. As pessoas que não têm interesse na pesca podem aproveitar os cenários para produzir várias fotografias, além de encontrar várias espécies animais, como capivara, anta, jacaré, cateto, onça pintada, aves de todas as cores e formas, inclusive os urubus, que elegeram uma única ilha para tomar sol, acompanhados de apenas um exemplar de urubu rei, que é branco.

Paulo de Barros Monteiro, 19 anos, esteve no Xingu pela primeira vez em 2004, acompanhando a família. “Sou paulistano e sempre fui acostumado a paisagens urbanas, quanto vi a oportunidade de conhecer mais o Brasil, resolvi ir. Confesso que não tinha interesse na pesca, meu pai sempre me incentivou que os animais devem viver soltos na natureza, mas no final da viagem acabei me entregando à pescaria, com o mestre Kdu Magalhães”, recorda Paulo.

Mas o que Paulo realmente se interessou foi pelo turismo fotográfico. “O lugar é fantástico, animais, o pôr-do-sol é extremamente bonito. Você fica surpreso ao ver tanta vida, tudo se movimentando ao seu redor, antas, jacarés, capivaras. O interessante é que a gente também desperta a curiosidade dos animais”, comenta.

O turista teve poucos momentos de saudade da vida urbana, mas passaram rapidinho. “Confesso que senti falta de tocar guitarra.” Em última avaliação da viagem, Paulo valoriza a oportunidade de vivenciar um processo socioeconômico. “Logo depois da viagem, estudamos em geografia as fronteiras agrícolas da região Centro-Oeste e pude falar sobre o que vi por lá. Infelizmente, nossa maior produção agrícola de soja está lá e vem destruindo nossas reservas naturais, principalmente Amazônia e Xingu.”

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