Turismo

Lagos ‘escondidos’ reservam surpresas

Roberta Mathias
| Tempo de leitura: 5 min

Quando a temporada de pesca tem início em março, o rio já começa a baixar. O tempo das fortes chuvas já passou e o período propício para boas pescarias segue até o final de outubro, quando novamente a pesca é fechada para garantir uma piracema tranqüila, com reprodução em abundância.

Rio totalmente na “caixa” e cerradão fechado garantem o surgimento de lagoas, onde vários peixes ficam presos, sem a possibilidade de voltar para o rio e lá se desenvolvem com fartura. Muitos já são freqüentados pelos pescadores, atrás da esportividade do trairão, difícil de pegar, mas fantástico em seus ataques primitivos.

Outra espécie confinada em lagoas é o tucunaré, que já “infesta” até nos remansos do rio Sete de Setembro. O peixe está procriando com facilidade, embora não seja especificamente da bacia, mas este é assunto para outra matéria.

De volta às lagoas, pescadores como o carioca Marcio Carvalho Big Mattos, 50 anos, cineasta e empresário que desfruta de seus momentos de lazer na pesca, seja em rios ou mares, descobriram um novo desafio: desbravar lagos inexplorados.

Big Mattos, juntamente com o fotógrafo de cinema Cezar Elias, 51 anos, e o argentino analista de sistemas Ruben Mario Galleno, 46 anos, buscaram emoções e imagens em lagos desconhecidos, com o amparo da equipe de piloteiros do Rancho Xingu. Além de enfrentar a viagem de barco, o grupo também precisou desafiar a mata, sendo os barcos carregados até o lago. O trio faz parte da Troupe Intrépida, do site www.intrepida.com.br, que vem ampliando sua participação no Xingu progressivamente.

Bote na água, tralha preparada e lentes focadas, começa a aventura, percorrendo cada milímetro da lagoa. “A turma estava pescando tucunarés, pois o local torna-se com facilidade uma área de criação, isso acontece também com as piranhas e bicudas. A praga do tucunaré aumentou muito este ano”, compara Big Mattos, que há três anos freqüenta a região.

Grandes exemplares foram capturados e depois liberados, como manda o protocolo deste grupo, bastante afinado com a pesca esportiva e usuário de anzóis e garatéias sem farpa, um comportamento ainda bastante incomum, para infelicidade dos peixes.

“Encostei o barco na margem, que estava com um palmo d’água, e deu uma explosão embaixo do barco. O ‘bicho’ nem se assustou. Pensei: é o trairão!”, recorda Big Mattos. O experiente piloteiro deu a receita, sugerindo uma pausa de 15 minutos na pesca: “Ele vai voltar para o mesmo lugar”, profetizou.

Ansioso, pois nos anos anteriores não havia capturado nenhum dos “bitelos”, o pescador aguardou pacientemente. Chegou a arremessar 12 vezes no mesmo lugar até pescar o peixe, que se desvencilhou da isca e fugiu. Big Mattos ainda voltou àquele lago mais um dia, mas não conseguiu tirar o trairão da água. “Nosso encontro já está marcado para o próximo ano”, sentencia o pescador, que enfrentou mais uma caçada, vencida, desta vez, pela caça.

Os companheiros de pesca se divertiam com os tucunarés, Gallego já fazia estatísticas. Acostumado com a pesca do pejerrey, em sua terra natal, considerado por ele a melhor pesca de água doce, o pescador também é adepto da pesca artificial, pegou vários tucunarés e tem o hábito, um pouco excêntrico, de registrar todos os peixes que pega, a isca usada, o local e o horário. O notebook sempre acompanha suas viagens.

Apesar de se divertir com os tucunarés na lagoa, seu melhor desempenho, de acordo com suas estatísticas computadorizadas, ocorreu no rio Sete de Setembro, quando pescou com outro intrépido, Marcello Nicastro. “Somente em um local, nós pegamos 11 tucunarés. Um seguido do outro e todos na maria (isca artificial), somente o maior foi na perversa da Borboleta”, acrescenta Gallego.

Surpresas

Alguns lagos são bastante explorados por pescadores que chegam ao Xingu durante a temporada de pesca, mas sempre há os inexplorados, menos acessíveis e selvagens, que provocam o interesse dos visitantes. Na área participar do Rancho Xingu, um dos lagos foi explorado pela primeira vez por pescadores que fazem parte dos sites Tupiniquim Brazilian Fly Tyer Team (www.tbftt. com.br) e Intrépida.

No ano passado, pescadores de fly como Gerson Teixeira Kavamoto e Liliam Lurico Sano, de São Paulo (SP), e a turma de Erechim (RS), formada por Fábio Teixeira Junior, Antônio Zanco e Lauro Rosset, tiveram a oportunidade de “desbravar” um dos lagos do Rancho Xingu. “Foi no lago do Atá, em 2004, que fisguei meu primeiro matrinxã na natureza”, recorda a pescadora Liliam Lurico Sano, pescadora de fly e de artificial.

Outro intrépido, Leonardo Marrara, de Brasília (DF), também participou de uma aventura no mesmo lago. Após uma pescaria bastante produtiva, de artificial, ao retornar de caminhonete para o rancho, o pescador teve a infelicidade de perder sua vara de pesca. “Ele voltou a pé, vasculhou parte da trilha e não encontrou nada”, recorda Oscar Azevedo Nolf. Este ano, ao retornar ao lago, Nolf teve a felicidade de encontrar o equipamento do amigo. “O Leo ficou superfeliz em rever sua vara. Até parece história de pescador”, brinca.

Em sua aventura no lago, que dispensou motor elétrico e até remo, improvisou duas zingas e foi pescar. “O lago é lindo, com a água na altura ideal para arremessos rente à margem e sem ninguém ter pescado lá nos últimos dez meses. Sem a facilidade do elétrico, primeiro comigo tocando o barco e depois largando a bucha na mão do Douglas, em pouco mais de uma hora pegamos mais de 20 tucunarés, sem sermos incomodados pelas piranhas”, acrescenta o pescador. “Apenas uma delas, muito safada, levou no dente a minha papablack de estimação, com garatéia e tudo! Fico pensando o que um peixe desses faz com um dedo da gente”, brinca Nolf.

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