Ser

Desejo adormecido

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 4 min

Depois de um dia atribulado, o travesseiro macio e os lençóis cheirosos prometem um bom descanso e lindos sonhos para ela. O convite, praticamente irresistível, é interrompido pela chegada dele, interessado em uma tórrida noite de amor.

Nesse momento, ela prefere se fingir de bela adormecida a se entregar ao príncipe encantado. A cena, na qual os papéis também podem ser invertidos, parece familiar?

Para a cabeleireira Solange*, essa é uma situação constante em sua vida conjugal. Casada há 20 anos com o bancário João*, ela conta que há dois anos perdeu o interesse sexual pelo seu marido. “Tínhamos uma vida sexual ativa, mas eu perdi o desejo por ele. Não tenho vontade nem de beijar na boca”, revela ela, que é mãe de três filhos, de 19, 15 e 14 anos.

De acordo com a terapeuta sexual e psicóloga clínica Maria Lúcia Biem, a falta de libido entre casais é uma queixa muito comum nos consultórios, principalmente em se tratando de casamentos ou namoros de longa data.

Segundo Biem, a diminuição do desejo sexual está, na maioria das vezes, relacionada a causas psicossociais. “Se a pessoa não tiver o desejo, o resto da relação vai ficar prejudicada. O desejo é necessário para que o organismo reaja fisiologicamente à excitação”, diz.

O cotidiano e a vida moderna recheada de compromissos são um dos principais causadores da inapetência sexual, destaca a terapeuta. “No relacionamento do dia-a-dia, muitas vezes o casal pode cair numa mesmice e isso faz com que a sexualidade não seja mais uma química interessante. Dessa forma, o desejo sexual vai diminuindo”, explica.

A professora universitária Amanda* sabe o que é isso. Casada há 12 anos com o também docente universitário Gustavo*, ela conta que a vida agitada pode atrapalhar a relação sexual dos cônjuges.

“Estamos vivendo nesse mundo globalizado, com muitos compromissos profissionais e a falta de tempo é a justificativa. Tanto no meu caso quanto no dele, temos uma série de compromissos e há momentos em que minha cabeça está na profissão e não na relação”, diz Amanda.

Apesar disso, ela e Gustavo, pais de duas meninas, de 2 e 9 anos, se empenham para manter acesa a paixão. “Embora todo casamento caia na rotina, sempre tentamos fazer com que o nosso não caia. Usamos brinquedos, saímos de casa ou vamos para um motel”, revela.

Sedução

Biem explica que a falta de desejo sexual está justamente ligada ao jogo da sedução. “Existem pessoas que nascem sedutoras e outras que precisam aprender a ser. A sedução não tem nada a ver com beleza física, ela está presente no olhar, no falar e nas carícias. Com a falta de sedução, as pessoas não perdem o desejo sexual, mas o desejo por aquele parceiro”, aponta.

Estresse provocado por problemas financeiros e brigas constantes também podem exterminar a libido, destaca a especialista. “Há muitos casais que se digladiam na verticalidade e não podem esperar que na horizontalidade vão resolver a problemática. Isso porque com o passar do tempo o relacionamento vai se desgastando e eles vão se afastando”, diz.

Outro fator que contribui para a falta de desejo é a educação repressora, que faz parte da formação de alguns indivíduos, observa a terapeuta. “Existem pessoas que são travadas em relação ao sexo e também às fantasias sexuais. Isso, com certeza, afeta a libido”, diz.

Sintomas físicos

Doenças ou causas orgânicas, como alcoolismo, depressão ou menopausa, também podem afetar a vida sexual dos casais, explica Biem. “A ejaculação precoce pode causar perda de interesse pela parceira porque a relação é frustrante para ela. A falta de orgasmo é outro fator prejudicial”, acrescenta.

Já na gravidez, a diminuição de libido depende de cada pessoa. “Existem mulheres que sentem mais e outras que sentem menos desejo; assim como nos homens: há alguns que perdem o interesse na parceira e outros que sentem mais atração por ela”, detalha Biem.

O pique sexual de cada pessoa também é apontado pela terapeuta como termômetro da relação. “Existem pessoas que têm uma libido menor, o que não significa falta de desejo. Elas não têm tanta vontade de ter sexo, sem que haja nenhuma causa orgânica”, observa.

“É preciso haver harmonia em relação ao pique sexual para que a pessoa que tem mais desejo não se sinta rejeitada”, complementa a terapeuta.

Quando a inapetência sexual atinge as mulheres, a fuga é uma das reações mais comuns, aponta Biem. “Elas começam a dar desculpas, como dor de cabeça ou o fato de estarem menstruadas, e eles se sentem rejeitados ou desconfiados”, diz.

“Algumas vezes finjo que estou dormindo ou demoro mais no banho só para evitar o contato com meu marido”, conta a cabeleireira Solange*. Por conta da inapetência sexual, revela ela, seu marido começou a ficar inseguro e mais ciumento. “Ele fica me perguntado se tenho outro homem, mas eu gosto dele mesmo e a falta de sexo não vai nos separar”, diz.

Quando a falta de libido afeta os homens, é comum as parceiras acharem que estão sendo traídas ou então que o amor diminuiu, destaca Biem.

* Nomes fictícios para preservar a identidade dos entrevistados

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