Geral

Cheios de ânimo, aposentados rejeitam o título de inativos

Adriana Fricelli
| Tempo de leitura: 3 min

Muitas pessoas na ativa vêem na aposentadoria uma oportunidade de descansar. Mas quando essa realidade se aproxima, a sensação é de medo, de vazio. A análise é da psicóloga Michele Meneguella Ferreira, que trabalha no Programa de Preparação para Aposentadoria desenvolvido pela Prefeitura Municipal de Bauru. “Para quem ficou quase toda a vida num mesmo lugar, quando chega a aposentadoria há uma ruptura de sua rotina e a pessoa se sente desestruturada”, afirma Ferreira.

Para a psicóloga, é necessário um planejamento anos antes da aposentadoria, no qual devem ser traçadas novas perspectivas, novas maneiras de trabalho e novas atividades. “No programa da prefeitura nós fazemos reuniões semanais com os servidores a fim de discutir a realidade que será enfrentada após a aposentadoria. A partir disso, levantamos os prováveis problemas e buscamos soluções”, aponta.

Ferreira avalia que as maiores dificuldades vividas por quem se aposenta são piora na condição financeira e inatividade. A fim de evitar isso, a psicóloga sugere que todos que passam por situação semelhante devem pensar em novas formas de geração de renda, além de visitar instituições que oferecem atividades à terceira idade para que os aposentados ocupem o tempo ocioso.

Produtividade

Sem vontade de viver foi como se sentiu Sandra Cecília Tessadri ao se aposentar. “Foi como se tirassem um pedaço de mim. Não tinha ânimo para fazer nada. Era uma vida inteira de dedicação que chegava ao fim”, lamenta Tessadri. Para se livrar da depressão, ela procurou outras formas de se sentir produtiva. Hoje está matriculada na Universidade Aberta à Terceira Idade (Uati), da Universidade do Sagrado Coração (USC). “Fazer esses cursos ocupou meu tempo ocioso. Comecei a notar que há muita coisa na vida para nós aprendermos, independente da idade”, diz.

Transformar o sofrimento em ações produtivas também foi decisão do técnico aposentado de inspeção aérea Paulo Evilazio de Souza. Ele espantou a saudade do trabalho trabalhando ainda mais, mas agora por lazer. “Sofri uns dois anos quando saí da empresa e resolvi mudar essa situação. Como sempre fui apaixonado por teatro, decidi me transformar de espectador em ator”, aponta.

Atualmente Souza é integrante do grupo Teatro Fazendo Arte, da Uati, e viaja pela região se apresentando. Fôlego para isso é o que não lhe falta. Há anos que Souza pratica esportes pelos menos duas vezes por semana e é professor voluntário numa escola de futebol para crianças.

Orlando Ortolan de Vasconcelos sentiu poucas diferenças quando deixou de trabalhar como técnico em topografia pela extinta Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. “Eu não me sinto aposentado. Continuo desenvolvendo normalmente minhas atividades. Sou requisitado até hoje para fazer desenhos arquitetônicos”, afirma Vasconcelos.

O aposentado ainda encontra tempo para ministrar palestras e exercer o cargo de presidente do Conselho do Museu Ferroviário Regional de Bauru. Se não bastasse, Vasconcelos dedica seus finais de semana a saídas com sua esposa para dançar. “Se parar a gente morre. Para que descansar? O corpo não gasta”, enfatiza.

O mesmo ânimo pela vida de aposentada é sentido por Aracy Silvério da Costa. Depois de ter dedicado 30 anos de sua vida como técnica em economia doméstica no Serviço Social da Indústria (Sesi), Costa decidiu fazer o que sempre quis: viajar.

O hobby logo se tornou ofício e a aposentada foi convidada para ser guia de excursão para grupos de terceira idade. “A aposentadoria foi um recomeço de vida!”, comemora Costa.

Comentários

Comentários