Nunca se mentiu tanto quanto agora. Nas CPIs, o depoente, cada vez que é interrogado, conta uma coisa desdizendo a anterior. Até hoje, ninguém sabe o que é verdadeiro do que disseram Delúbio, Valério, Silvio Pereira, José Dirceu, Azeredo “et caterva”, como gostam de escrever alguns cronistas. Será que alguma vez eles disseram alguma verdade? Criminosos e testemunhas dizem uma coisa ao delegado, outra ao promotor e outra ao juiz. Qual delas é a verdade ou todas são mentiras?
Vejam o caso do incêndio na rádio de Marília - todo dia sai uma versão diferente. Hoje, o indivíduo diz que botou fogo a mando de fulano, amanhã foi sicrano. E não é só isso. Depois de dizer ao delegado ou ao promotor que foi fulano, de dentro da cadeia manda uma carta dizendo que foi sicrano. Como ninguém acredita em punição, pouco importa que o falso testemunho seja crime e que se jure dizer a verdade, somente a verdade. Não há temor e nem respeito às autoridades. Mente-se deslavadamente.
Na acareação sobre o assassinato do prefeito de Santo André, Celso Daniel, um de seus irmãos desafiou Gilberto Carvalho a se submeter ao polígrafo, nome dado ao detector de mentira, depois de horas de afirmações contraditórias em que os membros da CPI não conseguiam saber quem estava dizendo a verdade. E, no final, ficou por isso mesmo, sem ninguém saber se havia alguma verdade no que foi dito ou se tudo era mentira. Se o detector de mentira realmente merecesse fé seria uma boa porque aí ficaríamos apenas com as mentiras inocentes, como as contadas por pescadores, que apenas fazem rir e não prejudicam ninguém. Mas os polígrafos, embora em uso há décadas, apenas medem a pressão arterial, transpiração e batimentos cardíacos e o operador da máquina é que interpreta os resultados para tentar determinar se o sujeito está mentindo ou não. Não dá certeza.
A preocupação em saber se o indivíduo está falando a verdade ou está mentindo acompanha a história da humanidade. Reproduzo texto de Ariana Eunjung Cha (The Washington Post), divulgado na Internet: “Há séculos que a humanidade busca um indicador físico que desmascare um mentiroso. Os romanos estudavam as vísceras dos suspeitos de serem mentirosos. Na China, enfiava-se arroz na boca do entrevistado para verificar sua secura, pois acreditava-se que, quanto mais seca a boca, maior a probabilidade de que a pessoa estivesse mentindo. Outras culturas experimentaram várias poções químicas ou ‘soros da verdade’, que não funcionavam melhor que a adivinhação.”
Há ocasiões em que seria bom se a ficção virasse realidade. Imaginaram como seria divertido se os indivíduos que vão depor nas CPIs virassem Pinóquios? Assistir às sessões das CPIs vendo crescer o nariz dessa turma toda de mentirosos seria uma diversão em vez de ser revoltante, como tem acontecido.
O autor, Pedro Grava Zanotelli, é consultor e ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru