Após sofrer um grave acidente e ficar em estado de coma, Tião, o peão interpretado pelo ator Murilo Benício na novela “América”, vê seu espírito se desprender do corpo. Em seguida, ele é tragado por um túnel escuro, recheado de crenças, lembranças da infância e entes queridos; no final do caminho, enxerga um luz extremamente brilhante.
Abusando do sensacionalismo, a situação retratada na ficção “ressuscita” uma polêmica existente em todas as civilizações: a experiência de quase-morte (EQM). Ela explica como a consciência, também chamada de alma ou espírito, se manifesta fora do corpo físico.
“A saída ou a projeção da consciência é tão natural quanto a respiração e o sono. Esse é um dado que deveria ser ótima notícia para todos: se a consciência pode se manifestar fora do corpo físico é sinal de que ela sobrevive à morte biológica”, aponta Málu Balona, professora e pesquisadora do Instituto Internacional de Projeciologia e Conscienciologia (IIPC).
Também denominada de “near-death experience” (NDE) (leia mais no texto abaixo), a EQM é mais registrada entre pacientes terminais, sobreviventes de morte clínica e em situações de perigo, como choques anafiláticos, afogamentos, traumatismos e intoxicações.
Balona ressalta que o fenômeno não é uma experiência meramente cerebral, uma vez que a maioria dos indivíduos que já passaram por ela relata situações vividas além do ambiente em que eles se encontram.
Na maior parte dos casos de EQM, pacientes que apresentavam morte clínica e voltaram a viver relataram a mesma situação: a consciência é projetada para fora do corpo físico; muitas vezes o paciente pode flutuar e observar a si mesmo no local do acidente ou em um hospital.
A situação foi vivida pelo policial militar aposentado Silva, 47 anos, que prefere preservar seu nome completo. Em 2002, ele sofreu um grave acidente automobilístico na rodovia Castelo Branco, próximo a Sorocaba. Silva foi o único sobrevivente entre os sete policiais que viajavam naquela viatura.
“O carro em que eu estava colidiu com a traseira de um caminhão. De repente houve um clarão branco e eu me via preso nas ferragens, dentro da viatura batida”, revela. “Nessa hora, entrei num jardim com uma fonte, onde haviam crianças, idosos e pessoas de várias idades”, conta.
“Estava me dirigindo até essas pessoas, mas não conseguia falar com elas. O lugar era bonito e as elas estavam felizes. Eu queria ficar por lá, mas uma voz me disse que eu precisava voltar. De repente acordei dentro da viatura batida, com o pessoal do Resgate me tirando das ferragens”, detalha Silva.
Casos como o do policial são estudados por Marlene Nobre, médica-presidente da Associação Médico-Espírita do Brasil (AME). De acordo com as pesquisas feitas pela entidades, cerca de 15 elementos podem se manifestar durante a EQM.
Um deles é a recapitulação de fatos importantes da vida do paciente. “A pessoa vê sua vida recapitulada nos mínimos detalhes, desde seu nascimento. É uma espécie de filminho; isso é muito comum em afogamentos”, diz Nobre.
Luz da vida
O aposentado Walter Ozias de Silos, 70 anos, também experimentou a linha tênue entre vida e morte. Em 1993, após um enfarto, ele sofreu quatro paradas cardíacas e permaneceu alguns dias em estado de coma na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) de um hospital de Bauru.
Na quarta parada cardíaca, sentiu seu espírito subindo ao lado de Jesus Cristo, que o segurava pela mão. “Quando chegamos lá em cima, paramos, e eu comecei a conversar com Jesus. Nós estávamos no alto e na parte de baixo vi um castelo romano. No meio do pátio, havia um enfermo deitado em uma cama com várias pessoas ao lado. Jesus curou o doente e em seguida ele se levantou”, conta.
Silos ressalta que além de presenciar a cena conversou com Jesus em um campo florido. “Nessa hora pedi para Jesus não me deixar morrer. Já sabia que tinha falecido, mas disse a Ele que eu queria viver. Em seguida, Jesus falou que eu precisava ter mais fé e eu prometi me dedicar a Ele”, conta.
De acordo com o aposentado, instantes depois, ele enxergou uma luz brilhante pela fresta da janela do quarto. “Fui abrindo o olho devagar e vi que Jesus tinha me dado uma chance de viver”, diz.
EQM e religião
Embora seja considerada mística para muitas pessoas, a EQM não é uma experiência religiosa, explica Balona. Segundo ela, o fenômeno da saída da consciência depende das crenças de cada indivíduo e da cultura de cada civilização.
“Na forma extra-física o indivíduo compõe seu sistema de referência. Os relatos de quem vê Nossa Senhora Aparecida ou Buda depende dos arquétipos. Se a pessoa acredita muito que é Alá que vai aparecer para ela ou Jesus Cristo, assim será. Há casos em que ela não se encontra com anjos ou santos, mas com pessoas, com as quais ela conversa e troca informações”, diz a pesquisadora.
Nobre concorda. “Os pesquisadores crêem que a EQM é um programa instalado em nosso cérebro e que é detonada a partir do momento que estamos na iminência da morte, só que uns se lembram e outros não”, diz.
Religiosos ou não, grande parte dos indivíduos que passaram pela EQM relatam mudanças comportamentais. Muitos apontam que após o fenômeno amadureceram e passaram a dar mais valor às emoções e à vida, caso de Silos e Silva.
“Senti uma tremenda transformação: o contato com Jesus foi muito forte e Ele me deu muita fé”, diz Silos. “A experiência afirmou que acima de nós existe Deus. O ser humano precisa aprender que existe vida do outro lado e não apenas a matéria. Eu senti a vida plenamente”, revela Silva.
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História
A experiência de quase-morte (EQM), ou near-death experience (NDE), é natural e está presente desde o início dos tempos, em todas as civilizações, aponta a professora e pesquisadora Málu Balona, do Instituto Internacional de Projeciologia e Conscienciologia (IIPC).
“Na Grécia, por exemplo, o fenômeno é relatado à população, no Egito é retratado nos livros e contos. O fato da alma ou da consciência deixar o corpo é tão antigo quanto nossa presença do mundo”, diz ela, que em 1996 lançou o livro “O Significado das EQMs”.
Apesar disso, ressalta Balona, as primeiras publicações sobre o tema começaram na década de 70. Em 1975, o psiquiatra americano Raymon Mood Jr. ouviu relatos de 150 pacientes que apresentavam todos os sintomas de morte clínica e, por algum motivo, voltaram a viver.
A maioria deles contou que viu a consciência se desprender do corpo físico e flutuar sobre a matéria. Os testes foram reunidos no livro “Life After Life” (“Vida Após a Morte”), obra que inspirou outros estudos sobre a EQM.
Anos depois, a médica Elizabeth Kubler-Ross, radicada nos Estados Unidos, tornou-se especialista em EQM e fundou uma instituição com o seu nome, que atende doentes terminais e seus familiares.