Tribuna do Leitor

Trinta anos de ‘Errare Humanum Est’


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Neste dia 11 de novembro completam-se trinta anos da estréia da peça teatral “Errare Humanum Est”, que indiscutivelmente marcou época na cultura bauruense, principalmente por ter sido encenada em pleno regime militar, quando as atividades culturais estavam sob forte censura e, em nossa cidade, particularmente, o conservadorismo era latente, ao ponto de pessoa da chamada “alta sociedade” chegar a interromper apresentação teatral de renomada atriz brasileira, por não concordar que a mesma ficasse nua defronte a um crucifixo colocado no cenário.

Um grupo de jovens apaixonados pelas artes cênicas, dirigidos pelo professor de história Paulo Roberto Alves Neves, resolveu inovar, afrontar e fazer cultura, fazer teatro em nossa cidade. Jovens audaciosos e corajosos saíram às ruas colando cartazes, pixando muros, visitando órgãos da imprensa falada e escrita em busca da melhor divulgação possível de seu trabalho. E a garra, coragem, destemor daquela juventude encontrou eco perante o povo bauruense que por nove apresentações aplaudiu o grupo.

Sucesso total.

Podemos dizer, sem medo nenhum de errar, que este evento se transformou em um divisor de águas na vida cultural bauruense e seria muito bem-vinda a realização de um evento que viesse resgatar a verdade histórica daquele período, bem como sua importância para a luta da redemocratização de nossa pátria. A partir de “Errare” alguns setores começaram a se mobilizar e organizar eventos culturais, políticos em nossa cidade, sempre com visão critica e questionando a permanência dos militares no poder. Lembramos da revista “Alternativa”, lançada pelo professor Jefferson Barbosa; Geraldo Bérgamo, Odil Oliveira Filho, Yoshino. Como recordar é viver, lembramos da revista “Mutirão”; Clodoaldo Cardoso e as feiras literárias; Ivonyr Ayres, Mário Gabrielli, no movimento cineclubista; as atividades culturais desenvolvidas pelos diretórios acadêmicos da cidade, em especial os da antiga FEB. Efetivamente, a vida cultural da cidade era movimentada, sem nenhum apoio dos órgãos públicos.

Decorridos trinta anos, a tentativa de realizar um evento que viesse a discutir a política cultural acabou sendo inviabilizada por falta de apoio do poder público. Era de se esperar a falta de apoio, afinal, os detentores atuais do poder não tiveram participação no processo de redemocratização de nosso país e muito menos na retomada do movimento cultural como forma de contestação à tirania, em uma época em que exibir filmes históricos - O caso dos irmãos Naves - levava seus exibidores para a Polícia Federal.

Já que o poder público não manifesta interesse no resgate da história cultural do município, tomo a liberdade de sugerir ao professor Paulo Neves e sua equipe de apoio que realizem um evento no Calçadão da Batista, no próximo dia 12 de novembro, convocando todos os agentes culturais que passaram por Bauru ao longo destes últimos trinta anos, para uma passeata cultural. O Vitor Martinello, a turma do Apenas, poderiam voltar a fazer chover poesias, o pessoal das escolas de samba poderiam estar presentem a este evento, que seria realizado sem apoio oficial, marcando para a população os trinta anos do “Errare”. Somente aconselhamos aos participantes para que não levem livros, quadros ou instrumentos musicais, pois correrão o risco de terem os mesmos apreendidos pelos fiscais da Secretaria do Planejamento, assim como apreenderam os quadros de um pintor argentino, recentemente. Para os repressores de hoje, a cultura livre incomoda, assim como incomodava ontem aos ditadores.

Antonio Pedroso Júnior

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