Cultura

Clássicos revistos chegam às locadoras

Diego Molina
| Tempo de leitura: 4 min

Versões de filmes considerados clássicos são quase sempre a soma de uma idéia dos estúdios visando lucro certo, um diretor pressionado em realizar um longa “digerível” para toda a família - ou o maior público possível - e um resultado medíocre. Exemplos são “Psicose”, de Gus Van Sant, ou “O Massacre da Serra Elétrica” e “Assalto à 13.ª DP”, para lembrar lançamentos recentes. Por outro lado, na mão de diretores competentes, tais projetos podem surpreender, e é o que acontece com “Guerra dos Mundos” e “A Fantástica Fábrica de Chocolate”, que passaram pelos cinemas nesse ano e já estão disponíveis nas locadoras, assim como seus “irmãos originais”, que também estão nas prateleiras para comparações.

“Guerra dos Mundos” é a reunião de Steven Spielberg e Tom Cruise depois de “Minority Report”. Dessa vez, o diretor adapta para as telas a clássica história de H.G. Wells, já filmada em 1953 por Byron Haskin e divulgada, anos antes, por Orson Welles, em uma realista série de rádio que assustou de verdade os americanos. O roteiro de David Koepp (“Quarto do Pânico” e “Homem-Aranha”) deixa de lado a trama original e aposta em uma abordagem mais familiar para o fato do planeta estar sendo invadido por alienígenas. No filme, Cruise é Ray Ferrier, pai divorciado que trabalha nas docas e precisa cuidar dos filhos, Robbie (Justin Chatwin) e Rachel (Dakota Fanning, mais uma vez surpreendente), por um final de semana. O protagonista é surpreendido pelo surgimento de um gigantesco “tripod” alienígena em um subúrbio de New Jersey, que incinera todos os prédios, veículos e humanos que encontra.

Ao invés de conduzir a história pelo caminho já trilhado no longa de 1953, Koepp e Spielberg optam por abandonar a trama dos cientistas e da luta da humanidade e das forças armadas contra os alienígenas. Seu foco é na tentativa de Ray em salvar seus filhos da ameaça iminente - devolvendo-os para a mãe, em Boston. Todo o necessário do clássico está no filme: as indicações de que a invasão é planetária, os esforços dos militares em combater os ataques, assim como o final que, se não toca no original, segue o mesmo caminho. No entanto, a câmera segue apenas as pessoas comuns.

O resultado é criador elogiando criatura, em claras referências a “Sinais”, de M. Night Shyamalan - fã confesso do americano. “Guerra dos Mundos” tem momentos absolutamente claustrofóbicos, especialmente nas cenas com participação de Tim Robbins, assim como o filme de ETs do diretor indiano. No outro extremo, Spielberg defende-se como um dos mais inteligentes “abusadores” de efeitos especiais e coloca seus personagens no meio da ação - e não apenas em frente a ela, sensação comum especialmente nos últimos episódios de “Star Wars”. Em espaços abertos, o chão se abre, prédios explodem e pessoas são desintegradas ao redor de Tom Cruise. A cena da conversa no carro, logo que os personagens deixam New Jersey, também é para se perguntar “Mas como é que eles fizeram isso?”.

O filme funciona sozinho, isto é, sem que se saiba, necessariamente, de onde vem a história. Mas a experiência é mais saborosa com os complementos do DVD, que traz diários de produção, documentários e entrevistas, típicos dos lançamentos do diretor.

A outra “refilmagem original” é “A Fantástica Fábrica de Chocolate”, que também deixa de lado o filme original, de 1971, em nome do livro de Roald Dahl. O diretor Tim Burton (de “Edward Mãos de Tesoura” e “Planeta dos Macacos” - outra refilmagem independente do original) optou por seguir mais fielmente “Charlie e a Fábrica de Chocolates” e ainda incluiu passagens do segundo livro da série do escritor, “Charlie e o Elevador de Vidro”.

No longa, o pobre garoto Charlie Bucket (o ótimo Freddie Highmore) é um dos cinco sortudos a encontrar um convite dourado nas barras de chocolate Wonka, que dá direito a um passeio pela maior fábrica de doces do planeta, fechada para visitas há mais de 15 anos. O dono do local é o excêntrico Willy Wonca (Johnny Depp, brilhante), que tem outras intenções com o concurso além de uma mera visita.

Burton mostra-se o diretor certo para um texto infantil e ao mesmo tempo ácido e psicodélico como o do livro. O visual único de seus filmes, como em “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça” ou “A Noiva-Cadáver”, em cartaz nos cinemas, parece ter sido um estudo para a gigantesca produção de “Fábrica”, com seus cenários e direção de arte irretocáveis e canções completamente pop, no melhor sentido da palavra.

É incabível e, ao mesmo tempo, irresistível, comparar os dois filmes. São produtos de épocas diferentes e com atores de personalidade - Depp no longa de Burton e Gene Wilder, no de Mel Stuart - encarnando Willy Wonca, cada um a seu modo e de formas completamente diferentes. Enquanto Wilder é todo mau-humor e ironia, Depp faz uma figura meio andrógina, Michael Jackson com acidez em comentários perspicazes. Ainda assim, o novo “Fábrica” consegue, de certa forma, superar a magia da história para o público atual.

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