Tribuna do Leitor

CONSCIÊNCIA NEGRA E A REVOLUÇÃO DO MEU IRMÃO


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Ouvindo através de um conceituado programa de rádio, cujo o tema se referia ao dia vinte de novembro, ou seja, o dia da Consciência Negra, dia este criado numa grande manifestação em 20 de novembro de 1995, eu e um bom grupo de Bauru que prima pela causa comparecemos em Brasília para contemplar este ato.

Mas o que me faz escrever esta missiva não é pretendido tão somente a enaltecer tal data e, enfim, repetir o que quase todo mundo concorda. Ou seja, realmente existe o racismo seguido de discriminação. Até porque sou negro, jamais me senti ofendido ao ser chamado de negão, preto pardo, etc... Mas o que segue neste relato tenta mostrar um pouco da sociedade que vivemos. E foi ouvindo tal programa que me veio a seguinte lembrança.

Em 1975, assim como a maioria pobre e negra, sempre no convívio periférico e inferior da sociedade, morávamos em um sítio onde não havia escolas para estudarmos, foi então que minha mãe e outras pessoas correram atrás de transporte junto à prefeitura daquela cidade, afim de que não ficássemos sem os estudos. O que após muita briga fora conseguido.

E então, todos os dias dirigida por um motorista conhecido por Ranchinho, partia uma perua Kombi, levando eu, meu irmão, minha irmã, e outros seis alunos meninas e meninos brancos. O trecho a ser percorrido levava cerca de uns quarenta minutos, onde havia algumas porteiras para serem abertas, e que imediatamente sem nenhum critério incumbiram eu e meu irmão de abrir alternadamente todos os dias da semana, isto sobre pressão e aos olhos maquiavélicos do sr. Ranchinho, talvez por se sentir humilhado com o que estava fazendo, sempre bradava “vamos logo, neguinho”.

Ocorreu que em certo dia, quando meu irmão estava escalado para abrir as porteiras, logo de manhã me disse que não iria na escola, sem dizer os motivos, porém, quando chegou a hora, e sob o convencimento da minha mãe, acabou indo. A perua partiu normalmente, e chegou na primeira porteira. Foi aí que se esclareceram os motivos. Revoltado, meu irmão empacou e fez acontecer a revolução porque a partir desta data foi feita nova escala e os demais passaram a abrir a porteira também. Mas isso repugnava no sr. Ranchinho, que cada vez mais nos odiava e nos ofendia.

Curiosamente, o motorista racista, que quando pronunciava “neguinho” realmente tentava ofender, teve um fim trágico. Dizem que mudou para o interior do Mato Grosso, onde fez amizade com um sujeito apelidado por “Branco” e que em certa ocasião que estava embriagado, desentendeu-se e chamara o filho do amigo de “Rato Branco”. Ofendido, o pai sacou de uma arma e o matou. Grato pela publicação. (José Rodrigues de Souza - RG 18.217.937-0)

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