Em 1935, recém-formado em direito pela USP, o professor Miguel Reale (hoje com 95 anos) publicou um livro chamado “O Capitalismo Internacional”. Já naquela época, há 70 anos, Reale intuíra que seria o capitalismo e não o socialismo que se internacionalizaria, tornando-se uma força econômica global. Mesmo assim, o jovem advogado sabia que entre estas duas forças que dominaram o século 20 (o capitalismo e o socialismo), é possível se chegar à terceira via que viabilize um sistema social em que prevaleça os direitos à liberdade e à Justiça. Onde um desses dois direitos encontra-se comprometido, não há como encontrar a paz social que desejamos.
O socialismo desabou ainda no final do século passado e o capitalismo está hoje na ordem do dia. Na ausência de um conjunto coerente de idéias que faça contraponto ao neoliberalismo vigente, vamos sentindo uma espécie de totalitarismo do mercado, porque tem-se a impressão de que nada poderá deter a lógica em curso. É, então, que explodem as ações terroristas em várias partes do planeta, os homens-bombas, os fundamentalismos, como reações em forma de desespero, justamente por não existir uma nova ideologia-força como alternativa. Percebemos, nos encontros e fóruns organizados que se propõem a debater a globalização, o vazio de propostas.
Não se trata de buscar modelos novos, porque tais modelos não se impõem automaticamente ou por meio de decretos governamentais. Um sistema social se constrói ao longo de séculos. O próprio capitalismo, se formos analisar, vem se estruturando desde o século 12, e passando por diversas fases, tendo a contribuição intelectual de vários pensadores (especialmente dos iluministas do século 18).
Diante da crise de propostas da atualidade (porque sabemos que urge corrigirmos as deficiências e aberrações do capitalismo), encontramos indicativos precisos do que fazer na doutrina social da Igreja Católica. Por ser “perita em humanidade”, a Igreja, desde a publicação da encíclica do papa Leão XIII, Rerum Novarum (1891), e também através de inúmeros outros documentos, vem acompanhando a evolução dos acontecimentos e fazendo apontamentos sobre os aspectos positivos e negativos do sistema capitalista (pois ela própria reconhece os positivos) e seus posicionamentos que muito nos ajudam a entender o que fazer para corrigir as distorções do sistema.
Na Centesimus Annus (número 34), o papa João Paulo II afirma que “tanto em nível de cada Nação, quanto no das relações internacionais, o livre mercado parece ser o instrumento mais eficaz para dinamizar os recursos e corresponder eficazmente às necessidades. Isto, contudo, vale apenas para as necessidades "solvíveis", que gozam da possibilidade de aquisição, e para os recursos que são "comercializáveis", isto é, capazes de obter um preço adequado”. E salienta: “Mas existem numerosas carências humanas sem acesso ao mercado”.
O grande desafio é encontrar meios para que essas “numerosas carências” tenham acesso ao mercado. E, mais uma vez, a doutrina social da Igreja apresenta de forma muito precisa os indicativos para que alcancemos um nível de organização social planetária em que seja possível a globalização da solidariedade.
O autor, Valmor Bolan, é doutor em sociologia, reitor da Universidade Guarulhos - UNG, vice-presidente do Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras - Crub - e diretor geral da Faculdade Editora Nacional - Faenac