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As histórias se repetem


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Há uma passagem muito interessante em A Condição Humana, obra de André Malraux, considerada um clássico da literatura mundial. Um senhor bastante virtuoso cria coelhos, há mais de vinte anos. Sua casa fica ao lado da alfândega interna. Os guardas da alfândega, substituídos, esquecem-se de avisar os substitutos da passagem cotidiana desse homem. Pois bem, ele chega, balaio sob o braço, cheio de capim. “Alto lá! Deixe ver o balaio.” A surpresa: sob o capim, lâmpadas, correntes de ouro, relógios, máquinas fotográficas. “É isto que dá aos seus coelhos?” – indaga um guarda. Olhando ameaçadoramente para os animaizinhos, o senhor virtuoso responde com toda a calma: “Sim, senhor chefe da alfândega. E se não gostarem disso, vão ter que passar fome.”

Essa historinha aparentemente ingênua faz pensar. Como os tipos humanos se repetem ao longo da vida! Hoje, abrindo os jornais, as revistas, ligando a tevê, somos obrigados a ouvir tanta baboseira, tanto sofisma, tanta mentira que cada um se pergunta a si mesmo: - Será que estão pensando que somos deficientes mentais?

Dia desses, após aquele pênalti escandaloso que o árbitro Márcio Rezende de Freitas deixou de marcar contra o Internacional, o Fábio Costa falou que, ao mais leve toque em Tinga, “encolheu a perna”, a fim de não cometer falta. E o presidente do Titanic, também conhecido como o messias, o ético, e torcedor irracional do Corintcha, inquirido pelo repórter, se teria sido ou não penalidade máxima naquele lance, respondeu: - “Sabe que eu não vi?”

Dá para acreditar numa coisa dessa? Os manuais de Psicologia costumam dizer que quando uma pessoa se pega pensando em algo comprometedor que uma vez já cometeu na vida costuma assobiar para espantar aquela lembrança inquietante. Não se admirem se, qualquer dia, um desses senhores virtuosos, que nos atribuem um QI negativo, diante de uma pergunta mais contundente, puser-se a assobiar o “Xô, satanás!”

Nas CPIs da vida, os autores desse enxurdeiro afirmam repetidamente não existir caixa dois. O que existe é “dinheiro não contabilizado”. E falam disso, com a expressão mais cândida do planeta, como gatinhos mansos, dóceis, que jamais molestaram canarinhos na gaiola. Dão de dez a zero no Garfield.

Aquela moça, a Rosângela Gabrilli, que depôs nas investigações sobre o pagamento de propina para a prefeitura de Santo André, é uma impostora, você sabia? Ela disse que foi extorquida e mostrou xerox de cheques, que chegavam a mais de 41 mil reais por mês. Mas, não! Isso não é o que parece ser... Se você viu as provas, seus olhos estão falseando a realidade, porque essa moça tem interesses excusos. Seus opositores, senhores virtuosos da prefeitura municipal de Santo André, afirmam que ela só fez isso porque a motivação era beneficiar-se do sistema de transportes urbanos daquela cidade. Portanto, esqueça o depoimento, os cheques, a extorsão. Enchendo seu balaio de notas de reais, esses virtuosos senhores não se importam com a forma de arrecadar o dinheiro! Eles, os carregadores do cesto, são honrados, são virtuosos, são éticos, são dignos!

Eu sei que muitos dos chamados senhores virtuosos, defensores da ética e dos bons costumes, irão protestar bastante ao ler estas linhas, porque, na verdade, estão certos de que os coelhos da historinha supracitada comiam mesmo aquelas coisas...

A autora, Maria da Glória de Rosa, é professora-doutora, e-mail: mgderosa@walk.com.br

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