Ser

Lar, doce lar

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 2 min

“Família, família, papai, mamãe, titia...”*. E por que não avós, genros, noras, sobrinhos ou pessoas sem vínculo consangüíneo integrando essa unidade emocional cuja função é cuidar, orientar, educar e socializar?

A questão veio à tona nas décadas de 60 e 70, período que marcou profundamente o cenário da família, explica a psicoterapeuta e doutora em psicologia clínica Marilene Krom. Segundo ela, desde então o modelo tradicional de família, organizado de forma heterossexual, monogâmico e nuclear, passou a ceder espaço para outros arranjos familiares.

Grande parte dessa mudança se deve às transformações sócio-culturais, tecnológicas, ambientais, econômicas, políticas e religiosas, que ao longo do tempo influenciam a sociedade contemporânea, destaca Krom.

Uma dessas novas composições é a família monoparental, chefiada apenas pelo pai ou pela mãe. Variação da organização nuclear – formada por pai, mãe e filhos morando no mesmo lar -, esse modelo começou a se constituir a partir do movimento feminista, observa a psicoterapeuta.

“A revolução preconizava a autonomia da mulher, maior liberdade sexual, desmascaramento das hipocrisias burguesas, inseminação artificial, além da facilidade em obter divórcio e de adoção por uma pessoa”, detalha Krom.

Fruto de divórcio, morte de um dos cônjuges e abandono de lar, entre outros fatores culturais, essa organização vem ganhando cada vez mais espaço na sociedade, aponta Gisele de Almeida Tamarozzi Lima, professora da Instituição Toledo de Ensino (ITE) e doutoranda em serviço social na área familiar.

“É um modelo que vem crescendo atualmente porque o homem, ao contrário de algumas décadas, não foge mais da responsabilidade de criar seus filhos. Numa situação de abandono materno, por exemplo, muitos assumem o cuidado e a educação dos filhos”, observa Lima.

Entre as novas configurações familiares, destacam-se ainda as famílias reconstituídas, caracterizadas pela junção de um casal com filhos oriundos de outros casamentos; aquelas que são organizadas sem vínculos consangüíneos; as famílias homossexuais e as famílias ampliadas. Também chamada de família extensa, essa configuração reúne diversos parentes ou ainda pessoas sem vínculo consangüíneo habitando o mesmo lar.

É o caso da família da dona de casa Maria de Fátima da Fonseca Costa, 52 anos. Juntamente com o pai, Arcindo, e a mãe, Izabel, ela, seu companheiro, dois filhos, uma neta e dois sobrinhos moram em uma casa conjugada, na Vila Industrial.

Próximo ao quintal de sua residência, vivem mais sete parentes: a irmã, o cunhado, três sobrinhos e dois sobrinhos-netos. “Por meio da sala da casa da minha mãe, é possível passar para a minha. Muitas vezes eu cozinho na casa dela”, diz Costa.

Além de desfrutar da convivência diária, ela aponta que a divisão das despesas é uma das principais vantagens em viver com outros parentes. “Sou viúva e recebo pensão, minha mãe também é pensionista, meu pai é aposentado e minha filha trabalha”, conta.

“A desvantagem é quando um parente briga com o outro, o que às vezes acontece. Mas no final todos se entendem”, complementa Costa.

*Trecho da música “Família” do Titãs

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