“Tenho 52 anos e muito o que aprender e receber dos outros. Não estou pronta ainda”, diz a cantora e professora bauruense Maria Martha Martins Ferraz, a Marthynha.
Nome de destaque no cenário artístico da cidade e região, ela acumula mais de três décadas de carreira, trilhada principalmente pela dedicação e força de vontade - característica herdada de sua família.
Filha de músicos, Marthynha começou a cantar em casa, ainda na infância. Incentivada pelos pais, integrou o coral da igreja e outros grupos de canto locais.
No final da década de 60, pediu uma chance para participar de um festival de música da cidade e a partir daí não parou mais.
Cantora de MPB, Marthynha foi chamada para se apresentar em diversos casamentos, aniversários e eventos. Anos mais tarde, foi atração em bares e restaurantes da cidade e, nesse período, formou-se em ciências e música.
No conservatório, descobriu outra vocação: a de lecionar. “Meu lugar era na sala de aula, ensinando o prazer de fazer e de se expressar através da música”, conta ela. Para isso, especializou-se em educação escolar e escreveu o livro “Aprendendo os desenhos da música para tocar flauta”.
Lançada recentemente, a obra mostra de forma simples e didática que todos podem aprender a tocar e cantar, basta estímulo para desenvolver essas habilidades. “Não digo que ser músico é um dom, mas é resultado do meio”, aponta ela.
Atualmente trabalhando como professora de educação artística na rede estadual de ensino, Marthynha divide seu tempo entre a profissão e os estudos, reservando um espaço especial para sua grande paixão: o filho Allan, 12 anos.
A trajetória de Marthynha, entre outros assuntos, são temas da entrevista a seguir.
Jornal da Cidade – Quando descobriu o gosto pela música?
Marthynha – Acho que começei a cantar antes de falar (risos). Eu era pequena, meu pai tocava violão e costumava me colocar para cantar. Não digo que ser músico é um dom, mas é resultado do meio. E isso é uma coisa que eu brigo até hoje, porque fui criada pensando que ser músico é um dom. Eu vejo isso como uma habilidade e o meio ajuda a desenvolvê-la. No meu caso, por exemplo, minha família é evangélica, de igreja presbiteriana. Minha mãe cantava nos casamentos da igreja, meu pai cantava no coral e os filhos iam junto. Enquanto o coral estava cantando, nós brincávamos perto da igreja. A música entrando na minha cabeça. Era gostoso e eu fui captando tudo aquilo. É o ambiente que fez isso. Desde pequena cantava no coral da igreja, depois passei para um coral universitário. Em 1968, houve um show no Bauru Tênis Clube (BTC) chamado de “E no entanto é preciso cantar” - um pedaço de uma música de Vinicius de Moraes – no qual, pela primeira vez, eu cantei fora da igreja. O show foi realizado na boate do clube. Fui até lá e me ofereci para cantar. Os organizadores pediram para eu tocar uma música e aí começei.
JC - A família apoiou sua carreira?
Marthynha – Meu pai e minha mãe sempre me incentivaram. Apesar de serem evangélicos, eles nunca falaram não. Eles me apoiaram a vida inteira, em tudo. Depois do primeiro show, teve outra edição do “E no entanto é preciso cantar”, no Automóvel Clube. Conheci outros cantores e aí o cenário foi se ampliando: pediam para eu cantar em casamentos, aniversários e eu ia, mas nunca cobrava. Só começei a cobrar depois que o Allan nasceu. Gostava tanto de cantar que não fazia questão, era pelo prazer de estar cantando.
JC – Como a senhora se define musicalmente?
Marthynha – Sou cantora de MPB. Gosto muito de jazz, rock antigo, sou do tempo dos Beatles e Rolling Stones. Tenho como referências Chico Buarque e Caetano Veloso, João Bosco e do irmão dele, Tunai, que é pouco conhecido.
JC – Além de cantora, a senhora é professora de educação artística. Lecionar sempre fez parte dos seus planos?
Marthynha - Quando terminei a faculdade de música, dava aulas no conservatório e aí descobri esse outro lado meu, o de professora. Fiz faculdade de música e foi onde me encontrei. Era meu lugar, com aqueles jovens, ensinando o prazer de fazer e de se expressar da música. Hoje dou aulas de educação artística. Muitas vezes, peço socorro para os professores porque eu conheço a história da arte e da música, estrutura, pintura e arquitetura, mas na hora de fazer um anjinho para o final do ano, é difícil. Aí as professoras me ajudam, ensinam e eu sempre falo que é preciso ser muito aberta e verdadeira, falo que não sei lidar com tinta e argila porque isso não fazia parte do meu curso. E sempre quando se fala em professor de educação artística, se lembra de artes plásticas e nunca em teatro, dança ou música. Na dança e no teatro eu “me viro”, porque fiz teatro muitos anos.
JC – Como foi essa experiência?
Marthynha – Fui para a Europa com um grupo de teatro de Bauru. Participamos do Festival Internacional de Teatro em Palermo, no tempo em que era preciso pagar para sair do Brasil, em abril de 1978. Pessoas da área cultural conseguiam, às vezes, serem dispensados de pagar a taxa e nós conseguimos. Éramos em 23 pessoas e a parte que tínhamos que pagar era o mesmo valor da prestação de ida e volta. Ficamos na Europa por cerca de um mês, fazendo festival e passeando um pouco.
JC – O livro “Aprendendo os desenhos de música para tocar flauta doce”, de sua autoria, mostra outra face de sua trajetória. Quando surgiu o interesse pela literatura?
Marthynha – A literatura veio na especialização em educação escolar, a qual terminei ano passado. Nesse período, eu trabalhava com as crianças do ensino fundamental, ensinando música para aqueles que queriam aprender. Começei a escrever uma apostila para eles, porque os pequenos não precisam saber escala ou ponto de aumento. Então, fiz uma apostila com aquilo que era importante saber para começar a tocar flauta. Fiz a mesma coisa para a turma de violão, formada por alunos do ensino fundamental e médio. Aí, quando procurava um tema para minha monografia, meu orientador sugeriu que eu escrevesse sobre a apostila que eu havia feito para meus alunos, contando o objetivo da apostila, quais eram os métodos e porque ela era importante para os alunos. Afinal, eles não faziam parte de uma academia de música ou conservatório. Eles não pretendiam ser músicos, não naquele momento. A apostila servia apenas para abrir a sensibilidade para que, se o aluno quisesse, fosse encaminhado para uma escola de formação. O objetivo era despertar o interesse, dar condições do meio para seguir para frente. Quando terminei a apostila, meu orientador sugeriu que eu fizesse um livro para quem deseja começar a tocar flauta.
JC – Por que a escolha desse instrumento?
Marthynha – A flauta é um instrumento barato e fácil de se adquirir. Se eu pedir para os alunos comprarem uma flauta boa, vão pagar cerca de R$ 30,00. Em comparação com um violão, que hoje custa em média R$ 350,00, o uso da flauta em uma escola é mais acessível. E se o aluno não tem condições de comprar, existe uma flauta nas lojas de 1,99 que custa R$ 4,00 e apesar de não ser tão maravilhosa, também toca e é possível aprender. É um instrumento acessível à nossa população e, além disso, o instrumento é desmontável, a criança pode colocá-lo dentro da mochila e levá-lo para qualquer lugar. Outra vantagem é a movimentação dos dedos exigida pela flauta, porque a criança tem uma grande agilidade nos dedos.
JC – O livro é dedicado somente às crianças?
Marthynha – Não, é dedicado a qualquer pessoa que tem interesse em tocar flauta. A obra não é infantil, ela tem uma linguagem facilitada e possui desenhos justamente para mostrar que a teoria musical não é um “bicho-de-sete-cabeças”.
JC – Segundo a senhora, mais do que talento, o músico é resultado do meio no qual está inserido. Explique melhor essa teoria.
Marthynha – Quando fiz a especialização em educação, estudei algumas teorias de ensino e aprendizagem, habilidades e competências e inteligência emocional. Começei a estudar as facilidades que as pessoas têm em aprender. Eu tinha alunos de violão que em três ou quatro meses já estavam tocando música. Outros iam um pouco mais devagar, mas iam porque a família incentivava. A mãe e o pai estava sempre junto, deixavam o filho entrar na Internet para pegar letra de música e tudo isso é uma facilidade que incentiva o filho. Havia outros alunos que tinham interesse, mas que a mãe ou o pai não incentivavam, talvez por receio, porque ainda existe esse preconceito de que músico não está nem aí com nada, que ele sai para tocar e não para trabalhar.
JC – É possível viver de música?
Marthynha – É possível porque existem muitas festas e casamentos para se tocar. Há muitos bares que dão incentivo para os músicos, mas por outro lado sinto que com a proliferação dos instrumentos, sintetizadores, CDs, DVDs e MDs, deixou-se de precisar tanto de música. A maioria dos bares em Bauru tem um tecladista que “faz-de-conta” ou só toca algumas notas. O restante está gravado em CD ou MD.
JC – Isso não desvaloriza o trabalho do profissional?
Marthynha – Muito, porque cai o preço da apresentação e desvaloriza o músico. Tem alguns locais em Bauru em que o músico só toca “se realmente tocar”, ele não pode por um MD. Nesses estabelecimentos, as pessoas exigem que o músico toque e que seja música de qualidade, o proprietário paga o que o profissional precisa receber por uma noite de trabalho e isso é justo. Mas há muitos locais em que os músicos utilizam MDs e os proprietários não pagam um terço do que se paga em outros lugares. Isso fez cair muito o reconhecimento do músico.
JC - Seu dia-a-dia é agitado? Qual é a receita para desempenhar os papéis de mãe e profissional ao mesmo tempo?
Marthynha – Brinco com meu filho que sou “mãetorista”, porque preciso levá-lo em todos os lugares. Além disso sou “pãe”, porque sou pai e mãe ao mesmo tempo (risos). A história do meu filho é maravilhosa.
JC – Por quê?
Marthyinha – Sou solteira e estava querendo adotar uma criança. Havia terminado a faculdade de música e já estava com 38 anos. As pessoas diziam que no meu caso era muito difícil conseguir isso porque apesar de ter emprego e casa, eu era solteira. No começo de 1992, fui atrás, fiz toda a papelada e fiquei esperando. Reformei o banheiro, comprei fraldas e um berço, parei de fumar e “fiz de conta” que estava grávida. Eu pedi para adotar uma menina de até 2 anos e tinha até escolhido seu nome, mas ela não veio. Passarem-se os meses de dezembro, janeiro, fevereiro, março, abril, maio, e em junho descobri que estava grávida. Foi uma “choradeira” no consultório da minha ginecologista por conta da alegria de esperar um neném que eu queria tanto. Mas o bebê era um projeto meu. O pai do Allan (que também é músico) o registrou, encontra e conversa sempre com ele, mas nós nunca vivemos juntos. Era um projeto que realizei. O Allan gosta de música, é meu parceiro e meu deleite.
JC - O que mudou em sua vida após a maternidade?
Marthynha – Mudou tudo. Com o crescimento do Allan eu mudei muito e foi muito gostoso. Ele é um menino carinhoso, de bem com a vida e bem-humorado. Está entrando na adolescência sem me dar muitos problemas e é calmo.
JC – E também herdou o talento musical dos pais...
Marthynha – É... O Allan toca contrabaixo em casa e bateria na Oficina Cultural, porque moramos em apartamento, mas ele ainda não tem banda, acho que é cedo. Ele tem 12 anos e muito tempo para poder investir nessa área. Não se pode sair brincando de tocar em banda. Eu sei disso, é preciso tempo e muitas horas de ensaio.