Conta a Bíblia que, avisada por um anjo, Maria daria à luz a Jesus Cristo na noite de Natal. Na véspera do nascimento, ela e José foram para Belém e, como não encontraram lugar para dormir, se acomodaram no estábulo de uma estalagem. E ali nasceu o Filho de Deus. Três reis magos, que viajavam há dias seguindo a estrela-guia, encontraram o local e para saudar o Messias, ofereceram como presentes ouro, incenso e mirra.
O episódio, relatado no Evangelho de São Mateus, é uma das explicações para o hábito mais comum no Natal: a troca de presentes. A exemplo da ação dos reis magos, o ato de presentear retrata uma prática comum em todas as culturas, ocidentais e orientais, e possui duas finalidades, aponta Carmen Maria Bueno Neme, psicóloga clínica e professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp).
“O presente tem dupla conotação. A primeira é nos tornar sempre presentes para uma pessoa querida, na qual depositamos afeto e amor. A outra é demonstrar carinho de forma material, por intermédio de um objeto”, diz ela.
Na Idade Média, reis e rainhas eram acariciados com presentes de valor simbólico. “Valia o simbolismo e o que o presente representava tanto para quem presenteava quanto para quem era presenteado”, explica Neme. Com o advento da sociedade industrial e o apelo comercial, o significado dos presentes se modificou, observa Neme. “Embora muitas pessoas procurem prestar atenção no valor simbólico do presente, a mentalidade consumista adquiriu muito mais força.”.
Além disso, o presente funciona, na maioria das vezes, como caminho acessível para a expressão dos sentimentos, aponta Neme. “É mais fácil dar algo do que dizer que ama. Isso é um comportamento reprimido em nossa cultura.”. A psicóloga clínica Isabel Dalco concorda e ressalta que, apesar do caráter material, presentear é uma manifestação que merece incentivo.
“O simbolismo de gratidão, carinho e amor pode ser representado de diversas formas e não apenas em lojas e floriculturas. Juntamente com o presente, levamos e recebemos esses sentimentos”, diz Dalco. É o que pensa a bancária Valéria Húngaro Costa. “Hoje em dia o que vale é uma lembrança especial para a pessoa”, diz. “Sempre fazemos questão de trocar presentes no Natal e nos aniversários, mas isso não é o mais importante”, complementa. A cabeleireira Ana Paula de Queiróz compartilha da mesma opinião. Para ela, presentes possuem uma grande carga sentimental.
Baú de lembranças
Presentes reforçam laços entre pessoas que se amam e marcam fases da vida. Quem nunca guardou caixas de bombom, bichos de pelúcia, bilhetinhos ou outros objetos que lembram pessoas queridas ou momentos inesquecíveis? “Todo mundo tem seu cantinho de recordações”, aponta Neme.
É o caso da estudante Vívian Húngaro Costa, 16 anos, que abriga em seu quarto dezenas de lembranças. “Guardo convites de festas com amigas e até copos de plástico dos refrigerantes”, revela ela, que herdou o comportamento da mãe, Valéria Costa. “Tenho até hoje bilhetinhos dos tempos de escola”, conta. Assim como elas, muitas pessoas gostam se tornar sempre presentes e relembrar pessoas especiais. “Presentes marcam datas e a história de cada um”, pontua Dalco.
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Crianças
Desde seu nascimento, o bebê ganha presentes. Na infância, é comum a criança se acostumar a receber mimos e brinquedos dos pais, tios e familiares. Justamente por isso, é fundamental prestar atenção na forma como os pequenos percebem o ato de presentear, aponta Neme.
Ela explica que, quanto mais se valoriza a mensagem subliminar do objeto, mais se evidencia o valor material do presente. Por exemplo, quando os pais dizem para o filho que ele se comportar bem, ganhará uma bicicleta. “É importante que a criança entenda que o amor não está ligado ao presente em si. A pessoa pode presentear, demonstrar dedicação e apreço de outra maneira”, reforça.
A criança não deve ser educada pela quantidade ou peso comercial do presente, mas pela importância do valor sentimental, destaca Dalco. Isso não significa que os pais não podem dar presentes mais caros aos pequenos. “Quem tem poder aquisitivo vai presentear o filho com o que há de melhor, mas os pais devem valorizar aquilo que a criança está recebendo. Não é a quantidade, mas a qualidade que o presente representa.”.
Esse comportamento é adotado pela cabeleireira Ana Paula Queiróz, mãe de Vitor Ikeziri, 4 anos. “Ensino-o a não ser materialista. É importante que ele se importe com o que ato de presentear, de demonstrar carinho, e não tanto com o presente”, conta.