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Grupo bauruense atua no projeto do rio São Francisco

Roberta Mathias
| Tempo de leitura: 4 min

Quatro profissionais de uma empresa de tecnologia e consultoria de Bauru estiveram recentemente no município de Barra, Bahia, para realizar uma pesquisa geotécnica contratada pela equipe da Fundação de Estudos e Pesquisas Aquáticas (Fundespa), órgão ligado à Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP).

A sondagem de solo realizada pela empresa bauruense ocorreu na mesma cidade baiana onde dom frei Luiz Flávio Cappio, bispo diocesano, fez uma greve de fome durante 11 dias, solicitando ao presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, que revisse o projeto de transposição do rio São Francisco.

A greve, na qual o bispo consumiu apenas água do rio, surtiu efeito e antes da transposição o governo deflagrou o processo de revitalização. Para que a realização desta etapa de alta complexidade técnica ocorra, a Fundespa conta com uma equipe multidisciplinar, à qual se integra a empresa bauruense.

Os profissionais de Bauru tiveram a oportunidade de comprovar, in loco, a realidade das populações ribeirinhas. Famílias inteiras dependem do rio e a situação é crítica. Além das dificuldades enfrentadas pela falta de chuvas, há um ano não cai uma gota d’água no local, as águas do São Francisco encontram-se muito abaixo do que já fora no passado.

De acordo com informações do coordenador de sondagem da empresa, Adriano Egydio, 28 anos, o perfil do São Francisco mudou muito. “O pessoal falou que em certa parte do ano, o rio chegava a invadir as ruas. Em 89, um prefeito fez muros de contenção. De onde ele fez até onde o rio está agora, dá uns 8 metros (de desnível). Nunca mais ele vai chegar lá. Nós fizemos sondagem no meio do rio onde há uma ilha de areia, é o assoreamento.”

Sondagem

O trabalho de sondagem ocorreu em uma área determinada pelo governo federal. O campo de provas, como a área é denominada, está inserido em cerca de quatro quilômetros do rio São Francisco, o que representa 0,1% da extensão total do rio, que corresponde a 4 mil quilômetros. Porém, de acordo com informações do engenheiro civil Eric-Édir Fabris, um dos proprietários da empresa, é representativa. “O que encontramos no campo de provas reflete a realidade do rio, com processos de erosão e assoreamento. Esta é a primeira etapa”, explica Fabris.

Também proprietário da empresa, o engenheiro civil Gilberto Serafim detalha o processo. “O governo escolheu um pedaço do rio onde havia todos os tipos de problemas que acontecem no São Francisco, formou-se o campo de provas. Nesse local foram feitas as prospecções, sondagens e tudo mais para ver quais as condições (atuais). Agora eles vão começar a projetar o que vai ser feito nessa margem para resolver esses problemas”, diz Serafim.

Além das ações técnicas, a equipe responsável pela revitalização deverá se preocupar com outros tipos de problemas para evitar e buscar soluções para os impactos ambientais e sociais. “Há muita erosão e processo de assoreamento”, destacam os engenheiros.

A empresa, que completa 25 anos de atuação em Bauru, atua nas áreas de tecnologia e consultoria. “Este é um trabalho de tecnologia, fomos coletar dados. As amostras de solo do campo de provas são preservadas em nosso laboratório, à medida que surge a necessidade da informação, eles solicitam e nós providenciamos. Por exemplo, ‘quero saber exatamente a curva granométrica’. Aí a gente vai para o laboratório de ensaios tecnológicos e faz a análise”, exemplifica Fabris.

A Fundespa já adiantou a necessidade futura de outras análises, quando ocorrer a liberação de verba federal, ocasião em que contará com novos subsídios para um projeto mais amplo de desassoreamento, navegabilidade e aproveitamento de recursos biológicos.

A sondagem mostrou, de acordo com informações de Fabris, que no local há um solo mais resistente, o que conteve a erosão. “Isso explica porque o rio não conseguiu mais erodir naquela região. Em compensação, em uma região assoreada já é totalmente diferente.”

Cidadania

Na opinião do engenheiro civil, o projeto de transposição é importante para dar oportunidade a outras populações, mas é necessário primeiro cuidar do rio e sua comunidade. “É mais ou menos o que a gente faz aqui no Estado, embora em uma situação mais confortável, com o aqüífero Guarani. Bauru explora o aqüífero, mas com a preocupação de não perfurar poços com menos de 1,5 km um do outro e não matar a ‘galinha dos ovos de ouro’. O próprio rio Batalha já está no limite de exploração. Em época de estiagem, Bauru tira o máximo de vazão sem prejudicar o rio”, sugere como exemplo o engenheiro.

Ele compara e aponta que no Estado de São Paulo ainda há uma consciência ecológica e atuação dos órgãos ambientais, inclusive não-govermanentais, mais intensa e consciente. “Mas quando a gente vai para um lugar como este que Adriano descreve, no Interior da Bahia, onde a tecnologia não chegou e a educação e consciência ecológica menos ainda, fica difícil. O projeto tem que ser muito mais ambicioso, passar por intervenções sociais, educação, consciência ambiental, saneamento, saúde. Praticamente criar cidadania. A revitalização deve passar por um processo de criação de cidadania da população, consciência dos seus direitos”, acrescenta Fabris.

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