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Panta rei ou sacode a poeira


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Para o primeiro dia do ano os editores sentem-se no dever de pautar matérias que façam uma retrospectiva do ano passado. A vida que não conseguimos segurar tem uma grande vantagem: ela passa levando tudo - dores e flores, amarguras e amores - para a cinza da indiferença e do esquecimento. Inútil, portanto, esse esforço de relembrar ao leitor o que passou. Sobre essa tentativa estéril refletia o filósofo Heráclito há 2.500 anos: “Nenhum homem toma banho duas vezes no mesmo rio, pois, quando volta a ele, nem o rio é o mesmo nem mais o homem o é”. O sábio vivia em Éfeso, na atual Turquia. Seus concidadãos o chamavam de “O obscuro”, porque era difícil de ser entendido. No entanto está claro que todas as coisas se movem e nada permanece imóvel. Essa idéia é sintetizada pela expressão grega “panta rei” (tudo flui).

“O que passou, passou” dizia a primeira estrofe de uma marchinha de Carnaval. De nada adianta os sociólogos afirmarem que a única coisa que existe é o passado. O presente é um processo e o futuro a Deus pertence – dizem. Então, valho-me do grande cientista Paulo Vanzolini, compositor do samba gravado há mais de 40 anos pelo saudoso Noite Ilustrada: “Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”. Afinal, em vários momentos e de muitas maneiras, cada um do seu jeito, sempre podemos dizer que “ali onde eu chorei/ qualquer um chorava/ dar a volta por cima que eu dei/ quero ver quem dava”. Esta a grande vingança contra quem mal nos quis.

Na antevéspera do Natal, enquanto esperava na Rodoviária o providencial carro-extra do Expresso de Prata para o doce regresso ao lar, compartilhei uma mesa de lanchonete com outros passageiros. Um deles confessava ter ficado desempregado, mas que conseguira dar a tal “volta por cima”. Sem mágoas do patrão, dizia que “pé-na-bunda tem a vantagem de nos empurrar pra frente”.

Outra pauta importante para a edição de primeiro de ano diz respeito aos “planos e projetos para o futuro”, como rezam os discursos vazios de gente importante. Aliás, quem faz planos para o passado? Meu interlocutor da Barra Funda, quando a conversa enveredou para o futuro da Pátria, deu uma golada firme na cervejinha gelada e despejou: “O que o Brasil precisa é de uma chuva de gasolina de três dias e depois alguém risca um fósforo!” Definitivo. Conclui que o futuro não é uma questão para ser lembrada, mas para ser esquecida. É o presente, portanto, o que conta: trocá-lo por profecias, seja de que natureza for, é alienação. Haverá quem faça do “6” deste novo ano, uma ilação com o número da besta do Apocalipse, expressão máxima da profecia no mundo cristão. Bobagem. O futuro não pode e não deve ser encarado como infalivelmente previsível, mas como o resultado de uma multiplicidade de ações do presente. Se o Brasil não continuar evoluindo no seu futebol a partir de hoje, poderá amargar derrotas na Copa da Alemanha. Nem é preciso consultar os búzios.

Restaria ao cronista repetir os “conselhos” muito comuns nas edições maçudas de fim-de-ano: “usem filtro solar”, alertou o publicitário norte-americano com câncer de pele. Ou então: “Lembre-se dos elogios que você recebe. Esqueça os insultos”. (Se você conseguir fazer isso, me diga como...). Pablo Neruda teve reflexões muito mais poéticas, é óbvio, para se viver melhor no novo ano. “Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os dias os mesmos trajetos, quem não muda de marca, não arrisca vestir uma cor nova e não fala com quem não conhece. Morre lentamente quem faz da televisão seu guru. Morre lentamente quem evita uma paixão (...)”.

Volto ao “panta rei” de Heráclito, que inspirou o italiano Luciano de Crescenzo a escrever um livro sob o mesmo título. Ele conta como abandonou a carreira próspera de executivo de multinacional para ser escritor. É dele uma expressão belíssima que talvez possa nos ajudar a entender o passado e empreender novos vôos com base na realidade sempre presente: “Somos todos anjos de uma asa só e só podemos voar quando abraçados uns aos outros”. Feliz 2006.(O autor, Zarcillo Barbosa, é cidadão brasileiro)

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