Outra vez, uma das maiores conquistas científica brasileira no setor de combustíveis está ameaçada: o uso do álcool combustível em substituição aos derivados de petróleo, como o diesel e a gasolina. Repete-se hoje a lenga-lenga de todos os anos, quando os produtores de álcool alegam a entresafra para aumentar o preço. Temos em estoque 4 bilhões de litros de álcool combustível justamente para garantir a entresafra e impedir o aumento de preço do produto de forma a não desacreditá-lo como fonte energética renovável e confiável. Na década de setenta, devido à 1a crise do petróleo, onde o barril subiu de US$ 2 para US$ 15 o barril, o presidente-general Ernesto Geisel (1975-1979) deu sinal verde para que um grupo de cientistas liderados por J.W. Bautista Vidal (“O Poder dos Trópicos” - Editora Casa Amarela) acelerasse a opção do uso dos hidratos de carbono, a bio-massa, como opção de matriz energética.
Após a descrença inicial de todos, o pró-álcool foi um sucesso tecnológico, estimulando a indústria automobilística, tão conservadora, a investir em motores que usassem essa nova opção de combustível. O sucesso foi estrondoso e, na década de 70, o carro movido à álcool era uma realidade. Apesar dessa vitória, tivemos o primeiro tiro no próprio pé dessa promissora descoberta quando, na década de 80, com 80% dos carros sendo produzidos para a opção nacional do álcool, os produtores, conseguindo mais renda na produção e exportação do açúcar, desrespeitaram contratos firmados com os governos militares e abandonaram a produção de álcool, desabastecendo o mercado interno. O espetáculo não poderia ter sido pior: milhares de carros a álcool fazendo filas nos postos de combustíveis para poderem abastecer seus tanques e continuar rodando.
A indústria de automóveis se desinteressa pela solução engenhosa, que cai em descrédito, dando os produtores mostras de não compreenderem o alcance da nova proposta energética, confirmando esse primeiro tiro no próprio pé. A situação se repete, apesar da indústria automobilística acreditar no potencial desse combustível e lançar os carros bi-combustíveis para o mercado nacional. Só a pouca visão de algumas pessoas do setor é que pode explicar outra vez essa opção. Querem obter lucro imediato, sem se preocupar com o mercado interno e externo que olha o álcool como opção, mas se amedronta com essas manobras estabanadas.
Aliás, não se entende por que os responsáveis pela produção da bio-massa não façam conta em ganhar na escala de produção, e insistam em alegar todos os anos a tal da entresafra, apesar dos estoques reguladores. E outra questão: quando alcançarmos o mercado externo com o precioso combustível, o mercado interno merecerá respeito ou ficará abandonado a sua própria sorte, como infelizmente ocorreu na década de 80?
O autor, Fábio Paride Pallotta, é professor de História do Colégio Fênix, especialista em Educação e mestrando da Cultura na Unesp de Assis