Bairros

Atravessadores tiram o lucro de catadores

Rafael Tadashi
| Tempo de leitura: 3 min

Trabalhar para sobreviver. Esta é a melhor definição da vida e da rotina dos catadores de materiais recicláveis autônomos. Nas periferias de Bauru, a subsistência vem do papelão, das garrafas plásticas e das latinhas de alumínio. No entanto, o trabalho, que pode ser relativamente rentável se realizado em cooperativas, torna-se exploração quando não há um grupo de pessoas com interesses comuns reivindicando o preço justo de seu trabalho.

De acordo com a secretária do Bem-Estar Social, Egli Muniz, o quilo do plástico, que é vendido em média por R$ 0,30 para os atravessadores, pode ser comercializado a R$ 0,45 o quilo a partir da cooperativa. No caso de metais, os atravessadores pagam cerca de R$ 0,15 o quilo. A cooperativa poderia vender o mesmo material por R$ 0,45. “A cooperativa fortalece os associados e profissionaliza o serviço, por isso existe esta disparidade nos valores dos materiais na hora da venda”, explica.

O resultado da soma destes centavos mostra a rentabilidade que o comércio informal de materiais recicláveis gera, principalmente para os atravessadores. Segundo Muniz, o lucro mensal dos catadores autônomos fica entre R$ 80,00 e R$ 150,00. Se cooperados, a renda destes trabalhadores pode variar de R$ 300,00 a R$ 800,00.

Segundo apurado pelo JC, há inclusive atravessadores que fornecem o carrinho para coleta e comida em troca do material reciclável. Ou seja, o catador ganha apenas a refeição do dia. “Estes catadores acabam se comprometendo com os depósitos e ficam atrelados a vender para os atravessadores”, conta Muniz.

A secretária do Bem-Estar Social explica ainda que os trabalhadores autônomos costumam desprezar o papel branco e as caixas de leite longa vida. O quilo desta última é vendida na associação de catadores por R$ 1,05. “Muitas vezes são os donos de depósitos que impõem quais materiais os catadores devem coletar. Na associação é mais fácil conseguir vender estes materiais”.

Rodrigo Pereira Nunes faz parte do contingente de catadores de materiais recicláveis autônomos. Morador da favela do Jardim Europa, ele explica que quase todos os seus vizinhos sobrevivem da venda de recicláveis. “O máximo que já consegui ganhar em uma semana foi R$ 50,00. Só da para comprar comida, e olhe lá...”, comenta.

Como a maioria dos catadores, Nunes cumpre religiosamente uma rota preestabelecida. “Não adianta ir cada dia em um lugar diferente, porque assim eu perderia muito tempo. É melhor passar nas casas e lugares que você sabe que tem uma boa quantidade de material”, salienta.

Apesar de adotar a mesma tática de Nunes para otimizar o serviço, a catadora Maria do Carmo Souza de Andrade diz que o maior problema hoje é a concorrência. Trabalhando com materiais recicláveis há oito anos, ela sustenta dois netos e o marido doente com a venda dos materiais. “Está difícil pôr comida na mesa. Tem muita gente vivendo disso. Não condeno ninguém, porque as pessoas precisam trabalhar, mas não está fácil”, reforça.

Por causa da tração animal, o catador Carlos Alberto Salvador Barbosa consegue coletar um número maior de materiais do que os coletores que não dispõem deste recurso. No entanto, ele afirma que o que ganha dá para comprar apenas comida. “As vezes faço três ou quatro viagens em um dia, mas como a concorrência é grande, falta material. Daí tenho que procurar no lixo que não é reciclável para ver se encontro alguma coisa. Era melhor se as pessoas separassem”, comenta.

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