Depois uma semana de desfiles no Rio de Janeiro, o calendário da moda volta à tona com a 20.ª edição do São Paulo Fashion Week (SPFW), que teve início na última quarta-feira e termina amanhã. Durante o evento, mais de 40 marcas apresentam novas tendências e estilos para as coleções outono/inverno e movimentam o Brasil e o Exterior.
Mas engana-se quem pensa que moda é terreno restrito à passarela, roupas, acessórios e estilistas. Cada vez mais, conhecimentos relacionados a teatro, cinema, televisão, fotografia e pedagogia estão se transformando em elementos de destaque na trajetória de profissionais da área.
É o caso do produtor de eventos Leandro Alves, 25 anos. Nascido em Pederneiras, ele passou a infância e adolescência em Bauru, ao lado da mãe e quatro irmãos. Atualmente morando em São Paulo, trabalha em uma produtora como técnico em direção e produção.
Além disso, Alves cursa o segundo ano de pedagogia na Faculdades Integradas Paulista (FIT), dá aulas ligadas à moda e ministra palestras em agências de modelos. A agenda, sempre cheia, não pára por aí. Há um ano e meio, ele faz parte do elenco da companhia teatral Raxubiku, atividade que o ajudou a criar um curso interartístico voltado aos modelos e profissionais do mundo da moda.
“É uma atividade prática que busca o desenvolvimento do aluno em várias áreas, como passarela, teatro, cinema, televisão e fotografia. O curso representa uma chance a mais para novos talentos se encontrarem com a arte”, explica Alves, que há mais de cinco anos trabalha na área de moda.
Jornal da Cidade – A arte sempre esteve presente na sua vida?
Alves – Sim, desde pequeno eu sempre gostei muito da arte, fui muito arteiro. (risos)
JC - O fato de você ser muito arteiro ajudou, então?
Alves - A arte esteve presente em toda minha trajetória. O tempo foi o fator principal para o aperfeiçoamento do meu talento. Na juventude, fui convidado, pela primeira vez, para trabalhar em um desfile no Casarão da Paulista pelo produtor Flavio Landim. Gostei muito e desde 2000 estou nessa área.
JC – De que forma a trajetória como músico e a participação em uma banda de Bauru contribuíram para seu atual trabalho?
Alves – Era vocalista de uma banda de samba, a Sensasamba. Isso contribuiu muito, porque foi meu primeiro contato direto com o público. Isso me deu uma base muito grande. O trabalho em grupo fortaleceu minhas relações com outras pessoas. Os anos 95 até 97 ficaram marcados na memória de muitos colegas de trabalho, principalmente na minha.
JC – O samba é seu gênero musical preferido?
Alves – Sou eclético. Gosto de musicalidade. Admiro todas as músicas, desde que elas sejam boas.
JC – Você é produtor, ator, ministra cursos ligados à moda, faz faculdade de pedagogia e já trabalhou como músico. O ecletismo também faz parte de sua carreira?
Alves – Costumo dizer que “me viro nos 30” para poder arrumar oportunidades no mercado. O lado eclético faz parte da minha carreira. Faço um pouco de tudo no cenário artístico. Acredito que a arte tem esse dom de ser dinâmica.
JC – Na sua opinião, moda é arte?
Alves – Sim, não só para mim, mas para muitos. A moda consegue tocar, sensibilizar as pessoas no mesmo nível do que as outras manifestações artísticas.
JC – Atualmente, o trabalho como produtor é destaque em sua vida? Como entrou nesse ramo e por que optou pela carreira de produtor?
Alves - O produtor tem mais liberdade na área publicitária e no mercado em geral. Seus pensamentos são valorizados e muitas vezes suas idéias se tornam mitos. E produzir arte é algo inexplicável.
JC – De que forma esses pensamentos podem virar mitos?
Alves – Cito como exemplo o palhaço Bozo. Todos o conhecem. Foi um produtor que teve a idéia de criar o Bozo ou foi um produtor que acreditou na idéia desse palhaço e o fez se tornar famoso. O produtor tem as técnicas de como trabalhar e busca novos conhecimentos. Por isso optei, além de ser produtor, pela pedagogia. São profissões nas quais é fundamental buscar conhecimentos a cada segundo. É como o trabalho de um jornalista. Enquanto está produzindo a matéria, ele precisa arrumar fontes, pessoas para entrevistar, pensar nas fotos. Tudo é dinâmico e eu gosto disso. É um desafio.
JC – Durante sua trajetória profissional, você teve apoio da família? Em que sentido?
Alves - A família é o eixo central de nossas relações. Minha família nunca teve muito dinheiro, mas a luta de minha mãe pela nossa vida me transformou em um guerreiro incansável.
JC - Quais foram as principais dificuldades enfrentadas por você durante seu trabalho como produtor?
Alves - A maior dificuldade é entrar no ramo. O mercado é muito restrito e exigente. Agora que já estou há mais de cinco anos na área, estudo muito para me manter no mercado e transformo as dificuldades em desafios.
JC – De que maneira?
Alves –A única forma é realizar uma mudança interior, ou seja, embora sabendo que determinada situação representa uma dificuldade, é preciso ter em mente que ela é fundamental para o desenvolvimento pessoal. No meu caso, digo para mim que não vou me perder diante dos problemas, posso cair, mas me levanto. É um estímulo interior, é preciso acreditar que algo vai acontecer. Uma hora ou outra isso acaba acontecendo.
JC – Você se considera uma pessoa determinada?
Alves – Sim, muito.
JC – Explique melhor seu projeto de realização de um curso interartístico para cidades do Interior. Qual é o objetivo?
Alves - Trata se de um projeto inédito no Brasil. O curso interartístico foi desenvolvido por mim e aprovado pela equipe de profissionais da agência de modelos Professional Models. É um curso prático, que busca o desenvolvimento do aluno em várias áreas, como passarela, teatro, cinema, televisão e fotografia. O curso representa uma chance a mais para novos talentos se encontrarem com a arte. Para garantir um aprendizado eficaz, investimos em uma proposta pedagógica, que nos dá segurança para desenvolver um bom trabalho. O curso vem sendo a sensação dos paulistanos interessados na área artística. Notamos que a evolução dos conhecimentos dos participantes do curso são altamente positivos e assim estamos conquistando mais espaço no mercado. Agora, com o projeto mais sólido, pretendemos “pegar a estrada” procurando novos talentos.
JC – O projeto une moda e outras vertentes artísticas, como teatro, cinema, fotorafia e televisão? É uma nova tendência do mercado?
Alves - Não. Não se trata de nova tendência. O projeto é uma experiência de unir em um só curso matérias que preenchem dúvidas e sanam curiosidades sobre essas modalidades artísticas e que revolucionam nossas vidas. E também oferece às agências de modelos e atores um casting de qualidade.
JC - Como você avalia o cenário de moda no Brasil e no Exterior?
Alves – O Exterior sempre foi o berço da moda e referência mundial para estilistas e produtores. Antigamente, se falava em moda por meio de Paris, Milão e Nova York, mas hoje esse contexto mudou um pouco. Cada vez mais, os guarda-roupas dos americanos e europeus contam com peças “à moda brasileira”, que vem conquistando respeito em todo cenário mundial devido a fatores como criatividade e audácia. Eventos como São Paulo Fashion Week e Fashion Rio são acompanhados pela imprensa no mundo todo e se tornam uma das principais referência latino-americana na área.
JC - Esses eventos ajudam a divulgar a moda brasileira? Quais são os progressos nessa área?
Alves - Com certeza e isso ocorre na maior parte das vezes devido ao trabalho da mídia. Há dez anos, eu, por exemplo, não imaginava como era o mundo da moda. Sabia o que era, mas não tinha uma visão mais ampla sobre essa área, assim como muitas pessoas. Hoje o contexto está mudando. A televisão atinge milhares de casas; é comum ver notícias sobre o mundo fashion na telinha. Isso ajuda a elevar esse movimento no Brasil e no mundo. O cinema também tem um peso importante nessa trajetória. Outro aspecto de destaque nesse sentido foi o Ano do Brasil na França. Os estilistas brasileiros deram um show, mostraram que vieram para dominar o mundo da moda. Pelo menos é o que eu acredito.
JC – Para muitos estilistas e consultores, a moda é resultado da vida urbana. Qual sua avaliação sobre isso?
Alves – A moda que vem das ruas é algo até óbvio, porque se o estilista a coloca em prática é porque ela é fruto de alguma coisa que o inspirou.
JC – No ano passado, as edições do Senac Fashion Day, dois eventos de antecipação de tendências de moda promovidos pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), movimentaram Bauru. É uma forma de disseminar a cultura de moda no Interior paulista?
Alves - Não pude acompanhar de perto os eventos, mas com certeza, para o Interior, eles são muito importantes. E esses projetos têm que se firmar sempre, em Bauru ou em qualquer lugar do Brasil.
JC – Em relação ao glamour da profissão de modelo, qual o conselho você sugere para quem está começando a carreira agora?
Alves - Buscar muito conhecimento, independente da área na qual a pessoa deseja atuar. A fama é o reconhecimento de um bom trabalho, mas é essencial tomar muito cuidado para que ele “não suba na cabeça” e dessa forma correr o risco de perder tudo o que foi conquistado. Humildade é sempre bem-vinda e leva ao crescimento profissional. O carisma pessoal abre as portas e a perseverança garante a vitória.
JC – Além de aprimorar o projeto interartístico, quais são seus planos para esse ano?
Alves –Viver cada momento como se fosse o único. Viver bem e feliz.