Do total de infrações cometidas por adolescentes, cerca de 9,3% resulta em apreensão do menor. Isso ocorre de acordo com a natureza da infração e se há reincidência. Em 2003, ocorreram 515 atos infracionais, dos quais 52 resultaram em apreensão, principalmente por roubo, tráfico de drogas e tentativa de homicídio.
Já em 2004, o número de jovens apreendidos foi 42, quando foram cometidos 507 atos infracionais. No último ano, foram 501 atos infracionais que resultam em 48 apreensões.
O juiz da Vara da Infância e Juventude, Ubirajara Maintinguer, aponta a adolescência como o período em que há o ponto mais alto de características violentas.
“A testosterona é o hormônio da guerra. Quando ele entra na descendente da curva hormonal, ele tende a deixar a característica da violência. Você não vê pessoas com mais de 30 anos com características de violência, vê pouco. Agora, um crime grave com adolescente é muito mais perigoso. Já vi cada coisa que um adulto não teria coragem, o adolescente fala: ‘eu faço’”, diz Maintinguer.
Hoje com 19 anos, uma adolescente recorda que, aos 15 anos ela e seus amigos acabaram envolvendo-se em ato de vandalismo. Ao sentirem-se “humilhados” por uma coordenadora de ensino, a turma decidiu invadir a escola durante o final de semana e praticar atos de vandalismo. “Eu fui com a turma até a escola e fiquei do lado de fora, porque ela (coordenadora) tinha chamado minhas amigas de vagabundas. Eles quebraram várias coisas e picharam também”, afirma ela, cujo nome será preservado pelo JC.
Todos acreditavam na impunidade, afinal, era tarde da noite e não havia ninguém por perto. O que o grupo não imaginou foi a possibilidade de ser delatado. “O irmão de uma das meninas contou para a coordenadora, que falou para o juiz”, diz. A partir de então, todos foram encaminhados para prestar serviços à comunidade, sob a responsabilidade Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Crea) da Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes).
“Eu fiquei atendendo pessoas portadoras de deficiência. Para mim, (cumprir a medida socioeducativa) foi ótimo, aprendi bastante, fiz amizades e vi que, às vezes, você quer ajudar outras pessoas, mas nem sempre tem condições”, diz. Filha de pais enérgicos, ela recebia, diariamente, uma ligação da família para verificar se estava cumprindo a medida socioeducativa corretamente.
Hoje, ela lembra que não tinha idéia das conseqüências dos atos, mas salienta que em nenhum momento sentiu-se influenciada pelos amigos. “Hoje distanciou todo mundo. Estou estudando para fazer faculdade e penso que o jovem precisa seguir o caminho sempre direito, nunca o esquerdo”, enfatiza.
Socioeducativo
Outro jovem que cumpre medida socioeducativa também vê no atendimento a outros necessitados a possibilidade de aprendizado. O adolescente, hoje com 21 anos, envolveu-se em um atrito verbal com uma profissional de uma escola, ao efetuar sua transferência, que resultou em uma briga. “Ela começou a alterar a voz contra a minha mãe, eu virei a mesa, quebrei o vaso e o telefone. Aí ela me chamou de negro e me acusou. Eu nunca fui um aluno violento, nunca usei entorpecentes e acabei pegando essa medida socioeducativa. Eu estou processando ela por racismo, me senti injustiçado, porque eu tinha testemunhas da minha outra escola, inclusive inspetores de alunos”, recorda.
Atualmente, ele mora em Garça, onde trabalha como motorista, e viaja todos os sábados para Bauru com o objetivo de cumprir sua medida socioeducativa. “Eu pago uma pessoa para ficar no meu lugar no sábado, que é um dia muito movimentado. Também trabalho no domingo, mas aí é administrativo. Sai caro porque também tenho que pagar as passagens”, diz o jovem.
Mesmo assim, ele pretende retomar os estudos que parou no ensino médio e, quem sabe, fazer uma faculdade. “Agora só faltam seis semanas. Lá, eu faço um pouco de tudo, desde limpeza, atendimento, até acolher as pessoas que chegam. Todos me tratam muito bem”, salienta.