Política

Obras inacabadas acumulam problemas

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 4 min

Apesar de não haver estatísticas oficiais a respeito, nem na Prefeitura Municipal ou em entidades ligadas ao setor, a quantidade de obras inacabadas, inativas ou abandonadas em Bauru assusta. Elas estão presentes em todos os cantos da cidade, da periferia até áreas centrais e nobres, e há anos a fio são redutos geradores de inúmeros problemas que perturbam, causam prejuízos e ameaçam a segurança e a saúde da população.

Uma das mais famosas é o viaduto iniciado na administração Tidei de Lima e inacabado até hoje. Ele que teria a missão de agilizar e desafogar o trânsito do Centro à Vila Falcão. Mas a questão não é exclusividade do setor público, pois em diversos pontos da cidade há muitas obras particulares na mesma situação. No Centro, destacam-se a área do que era para ser o complexo Maksoud e o Bauru Park, prédio no cruzamento das ruas Bandeirantes e 13 de Maio, com cerca de 750 vagas de garagens que permanece inativo há anos.

Já no cruzamento da avenida Getúlio Vargas, um dos pontos comerciais e residenciais mais valorizados da cidade, com a avenida Arnaldo de Jesus Carvalho Munhoz, uma edificação abandonada serve de abrigo para uma família que invadiu clandestinamente o local e já foi alvo de reportagem do JC retratando o assunto. Ainda nas proximidades, na rua Aviador Marques de Penedo, uma construção inacabada apodrece ao sabor do tempo e colabora para aumentar a decadência visual e de infraestrutura da via, que é de terra. Mas as construções desse gênero não páram por aí.

O caso de uma comerciante, que pediu para não ter o nome divulgado pelo JC, na avenida Nossa Senhora de Fátima, outra região valorizada em Bauru, é exemplar para ilustrar os transtornos que obras nessas condições são capazes de causar. Seu estabelecimento é próximo à uma construção abandonada, localizada na quadra 13 da mesma via, que, tomada por um matagal e um “esqueleto” de um edifício completamente deteriorado pela ação do tempo, pode ser facilmente invadida em razão da inexistência da parte de um muro lateral.

E isso é justamente o que vem ocorrendo, conforme a proprietária do estabelecimento. Ela conta que o local é freqüentemente invadido por moradores de rua, fato que tem lhe causado diversos transtornos. “Já sofri muito com esse pessoal. Atiraram garrafas no carro do meu irmão, estilhaçando os vidros, e o vidro da frente de um balcão do meu comércio já foi quebrado por eles”, revela.

Já os moradores do Higienópolis sofrem com a proliferação de pernilongos oriunda de um edifício inacabado há anos, localizado no cruzamento das ruas Anhangüera com Capitão João Antonio. “Quando chove, dá para ver a água que se acumula nas dependências dele. A gente tem medo de que possa ser um criadouro de dengue, pois soubemos que os responsáveis pela obra foram até multados por isso e, de vez em quando, vemos bombas sugando a água”, ressalta uma habitante das imediações que também solicitou não ter o nome divulgado.

Mas as obras abandonadas também geram outros riscos à segurança, conforme relata o engenheiro Marcos Wanderley Ferreira, presidente da Associação dos Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos de Bauru (Assenag). “Quanto mais tempo elas permanecem paradas, maiores são os riscos. Em alguns casos, corre-se perigo até de desabamento, pois a ferrugem vai tomando conta e comprometendo as estruturas por não estarem protegidas devidamente contra as intempéries. E com a ferragem se deteriorando, as partes concretadas também não agüentam e podem desabar”, alerta.

O JC procurou a Prefeitura Municipal para falar sobre o assunto. Em resposta por e-mail à reportagem, o engenheiro Ricardo Thadeu Vaz Pinto Coelho, da Divisão de Aprovação de Projetos (DAP) da Secretaria Municipal de Planejamento (Seplan), ressaltou não existir legislação para determinar tempo de término das obras e que, através do setor de fiscalização, elas são vistoriadas e os proprietários notificados para manter os locais em condições normais de conservação, limpeza e manutenção.

Trava

Há ainda quem lamente o fato de empreendimentos parados “travarem” o progresso da economia local. É o caso de comerciantes próximos à área daquela que seria o complexo Maksoud, idealizado para contar com um hotel e um shopping. Regina Geraldo Quatrina, proprietária de uma floricultura, é um deles. Ela ressalta que, quando o empreendimento foi lançado na cidade, resolveu instalar seu estabelecimento nas proximidades porque esperava um “boom” de desenvolvimento na região.

“Foi um dos principais fatores que pesou para a gente vir para cá, pois esperávamos um movimento enorme de pessoas por aqui. Só que estamos há pelo menos 16 anos nessa expectativa”, enfatiza.

Outro comerciante das adjacências, Hecmet Farha Júnior, também segue igual raciocínio. Apesar de ressaltar que o local possui segurança permanente, ele considera-se prejudicado por ter investido no local e protesta que nem mesmo o trânsito de pedestres é possível em frente ao seu estabelecimento.

“Não há calçada porque não há como recuar os muros de proteção da obra, pois do outro lado tem um buraco. Por isso, aqui não tem movimento nenhum. E o pior é que a obra está parada há anos e ninguém faz nada para que a situação mude”, critica. E completa: “Demoliram um prédio histórico na cidade, que era o Colégio Guedes de Azevedo, para não fazerem nada.”

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