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Como é difícil


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O binômio amor-educação, citado à exaustão, nem sempre é convenientemente justificado. Uma ênfase não muito clara atribuída à palavra “amor” vem desgastando seu significado, a ponto de torná-la uma panacéia. Como se, ao fazer descer goela abaixo do aluno uma superdose desse amor mal definido, as trevas se transformassem em luz. Não é bem assim... Em primeiro lugar, é preciso esclarecer o que cada um entende por amor. Alguém já disse que “a vida é amor e o amor é vida”, uma bela frase, porém, ambígua demais. Muitos vêem no amor essa dimensão espiritual, que se expande e nos une a uma realidade desejável, mas não sabemos como alcançar. Daí as palavras de Rumi: “O amor é como os mensageiros do mistério nos contam coisas”. Pretendendo dizer muito, ambas as definições dizem pouco.

Barthes, em resposta à pergunta “o que você pensa do amor” diz, simplesmente, “não penso nada, bem que eu gostaria de saber o que é ”... E se ele não sabe... “É atopos o outro que amo e me fascina”, diz Barthes, tomando emprestada a palavra de Sócrates, para designar aquele que se ama como algo estranho, extraordinário, insólito. “É a figura da minha verdade: ele não pode estar contido em nenhum estereótipo (que é a verdade dos outros)”, conclui Barthes. E agora, aqui, a colocação fica restrita demais. Fechou-se o leque da amplitude para cairmos no pontual. Que é esse amor ao qual se pretende identificar a educação? Freud pintou um retrato da natureza humana assustadoramente sem amor. O homem usará da violência impiedosa para obter dinheiro, sexo e poder. O mandamento de Cristo de amar o próximo como a ti mesmo é uma impossibilidade psicológica, diz ele. Embora seja uma avaliação devastadora, já vimos bastante da vida para concordar com ela.

Deixemos Freud de lado e suponhamos que haja lugar para o amor no mundo. Que amor? Esse amor amplo, largo, levaria a algum lugar? Num livro de 347 páginas de Deepak Chopra, O Caminho Para O Amor, não há uma única indicação precisa do verdadeiro significado desse sentimento, a não ser macro-idéias: “O amor é espírito, e todas as experiências de amor, por mais insignificantes que pareçam, são na verdade convites para a dança cósmica”. Por outro lado, definições de um amor estreito demais, entre tão-somente dois seres, não apequenaria esse sentimento?

Entre dois mundos, é preciso optar por um determinado sentido para o amor. A partir daí, tentar aproximar a educação do que cada um compreende por amor. Supondo que o educador encare o amor como um afeto, talvez caibam as perguntas: é fácil ou possível “amar” o aluno insubordinado, cheio de maus hábitos da mesma forma que o aluno comportado, inteligente, bem educado? Qual professor teria coragem de admitir, sem subterfúgios, “amar” aquele aluno problemático, desde que ele não se aproxime demais? Como é difícil atuar sempre dentro dos parâmetros do amor, qualquer que seja nossa posição em relação a ele! Fora da família, como disse Reboul, onde está a relação afetiva por excelência, o amor pode não passar de paternalismo, arbitrário e iníquo. São os tiranos que “amam” o povo. E se o amor que pretendo dedicar ao aluno - continua teorizando Reboul – for rejeitado, “não sereis, então, coagidos a coagi-los?” E aí, caímos na tese da autoridade coercitiva em educação...

Da mesma forma não ser fácil agir sempre como uma pessoa amorosa, é complexa essa tentativa de identificar a educação com o amor! Em Brameld, para quem o propósito e o processo da educação deveriam ser totalmente reconstruídos, encontramos algumas advertências. A falta de visão, a cautela, a timidez, a imaginação chã, as confusões teóricas são obstáculos que devem ser vencidos. Segundo esse educador, justifica-se plenamente a crítica que se faz à superficialidade na formação de professores, razão pela qual se deve exigir deles um sólido conhecimento de Axiologia, abrangendo análises filosóficas de problemas de valores.

Brameld critica, e com justiça, a falta de coerência ou até mesmo de identificação entre o que se propala axiologicamente e o que comumente se pratica. Seria mais ou menos como o comportamento de uma pessoa que, ao encerrar uma palestra sobre a solidariedade, comunhão de atitudes etc, ao dirigir-se para o seu carro, estacionado em lugar proibido, destrata o policial que o multou... Identificar educação com amor é por demais nebuloso na ausência de um conceito seguro e plausível desse sentimento... (A autora, doutora Maria da Glória De Rosa, mgderosa@bol.com.br, é professora e colaboradora da seção Opinião)

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