Ser

Amor infiel

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 4 min

Nos próximos capítulos da novela “Belíssima”, Júlia, personagem vivida por Glória Pires, vai descobrir que o esposo André (Marcello Antony) e a filha Érica (Letícia Berkheuer) são amantes. O filme “Infidelidade”, de Adrian Lyne, retrata o drama de Edward (Richard Gere), traído pela esposa Connie (Diane Lane) com um jovem vendedor de livros.

Fugindo da ficção, o tema também marca o casamento de algumas celebridades, caso dos atores Sienna Miller e Jude Law, o qual se envolveu com a ex-babá dos filhos deles. Já Hillary Clinton expõe seus sentimentos sobre a traição do marido, o ex-presidente dos Estados Unidos Bill Clinton, no livro “Living History”.

Fictícias ou reais, essas histórias ilustram um dos comportamentos mais polêmicos de homens e mulheres: a traição entre casais. Considerada tabu para algumas pessoas ou encarada de forma mais liberal para outras, a questão da infidelidade sempre acompanhou os romances, desde a antigüidade até os tempos atuais.

O número de mulheres que traem, porém, aumentou, destaca a psicóloga clínica e terapeuta sexual Maria Lúcia Biem. “Antes, a mulher era educada para o casamento, a situação financeira dependia dele e a família precisava ser conservada por questões religiosas”, diz a psicóloga.

“Na época da escravidão o senhor de engenho tinha filhos com as escravas. Na maioria das vezes sua esposa fingia que não sabia e sofria calada. Hoje, os casos de mulheres que traem aumentaram. Além da liberdade sexual, a questão econômica e a ascensão feminina no mercado de trabalho influenciaram essas mudanças”, detalha Biem.

Apesar disso, o conceito de traição - fazer pelas costas, de forma escondida - ainda é o mesmo em todos os relacionamentos amorosos. O que muda é a reação de cada pessoa. Algumas pessoas traem porque são infelizes no relacionamento, explica a psicóloga. É o caso da secretária Regiane*, 20 anos. “O namoro não andava bem, caiu na rotina. Quando aconteceu, me senti culpada e acabamos terminando a relação”, conta.

Muitas vezes o parceiro não consegue resolver determinada questão e busca uma compensação fora, explica Biem. “Como exemplo cito uma pessoa que não está feliz sexualmente e que ao invés de resolver o problema com o outro, busca uma aventura fora”, diz.

Em algumas situações, a traição pode ser conseqüência de uma paixão por outra pessoa. Isso aconteceu com Regiane. “Não tinha coragem de falar para meu ex-namorado que estava infeliz. Acabei me envolvendo e ficando com outro”, revela.

De acordo com Biem, há casos de traição motivados pela auto-afirmação masculina ou ainda devido à questão cultural, a qual de certa forma “aceita” que os homens tenham várias mulheres. “Eles, chamados popularmente de ‘galinhas’, não se bastam apenas com uma mulher e o cotidiano faz com que procurem novas emoções”, ressalta Biem.

Na maioria dos casos, a infidelidade está relacionada à falta de cumplicidade e isso gera vários tipos de emoções tanto para quem trai quanto para quem é traído. Nessas situações, homens e mulheres podem reagir de formas diferentes, aponta a psicóloga. “Durante algum tempo e até hoje, eles traem e acham isso normal.

Alguns homens até consideram o comportamento como uma aventura, pois amam suas esposas”, aponta Biem.

“Elas, embora isso tenha diminuído, carregam um sentimento de culpa. O homem trai por sexo e a mulher por conta do envolvimento afetivo com outra pessoa”, complementa a psicóloga.

Depois da tempestade

Os sentimentos provocados pela infidelidade dependem do nível de envolvimento afetivo entre os parceiros, analisa Biem. “Quanto mais forte for esse envolvimento, mais forte será o sofrimento. Muitas vezes o tempo de duração do relacionamento influencia bastante, mas independente disso, a mágoa e a raiva caminham juntas.”

“Um dos primeiros pensamentos que a pessoa traída tem é a vontade de se vingar. E muitas vezes ela pensa em conquistar alguém melhor ou mais bonito do que o companheiro para dar o troco”, observa a psicóloga.

A bancária bauruense Juliana*, 39 anos, sabe bem o que é isso. Seu primeiro casamento foi marcado pela traição, de ambas as partes. “De repente, meu ex-marido encontrou outra mulher, mais nova do que eu. Eu nunca a vi, mas sabia que estava sendo traída”, revela.

“A partir do momento em que se começa a conviver junto, entre quatro paredes, se conhece o outro até pelo andar. Ele alterou seu comportamento e ficou agressivo.”, diz Juliana. Desde então, eles passaram a dormir em quartos separados.

“Um dia eu o chamei e avisei: ‘Cuidado, que se eu flagrar, você vai pagar com a mesma moeda. Aí ele deu risada e disse: quem vai querer uma gorda como você?’”, conta a bancária. “Fiquei me sentindo feia, impotente e procurava saber onde foi que eu errei. Me culpei e não atribuí a culpa somente ao meu parceiro”, conta.

E Juliana não ficou só na ameaça e resolveu se vingar do ex-marido: conheceu outra pessoa, se apaixonou e também o traiu. “Estava muito carente e quis dar o troco’. E não era devido à questão sexual, mas por conta do carinho e companheirismo que estava faltando no meu primeiro casamento”, confessa.

Envolvida por essa paixão, Juliana engravidou e “embarcou” em uma segunda união, mas em menos de um ano resolveu romper o relacionamento. “Quando vi que não ia dar certo já me separei, porque tinha medo de sofrer de novo”, conta.

* Nomes fictícios para preservar a identidade das entrevistadas

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