Cultura

Apenas uma viagem, mas uma boa viagem

Padre Beto*
| Tempo de leitura: 4 min

Ao receber a visita de uma amiga, Michelangelo, que se encontrava muito doente em uma cama, revelou seu mais sincero desejo: “Eu estou com 86 anos e espero logo terminar minha trajetória por esta existência!” A amiga, então, com certa tristeza, perguntou ao grande artista: “Você já está cansado de viver, não está?” Michelangelo com um sorriso e um brilho nos olhos respondeu: “Não, de forma alguma! O que eu quero é continuar minha viagem e conhecer ainda mais a vida!”

Para Anselmo de Canterbury, a fé deve ser, antes de tudo, um fenômeno racional (fides quaerens intellectum). Isso não quer dizer que podemos conhecer a Deus através de nossa razão humana. Afinal, esta racionalidade à qual damos o nome de Deus é imensa e complexa demais para ser totalmente compreendida pela razão humana. Porém, é impossível e demasiadamente perigoso a fé alienada da razão e isso Anselmo deixa claro em seus escritos.

Fé e razão devem estar em uma constante relação dialética. Se a fé é a coragem de viver e acreditar em uma visão cósmica e em um ser transcendente, a razão deve nos incomodar com questionamentos críticos sobre o sentido da vida, a existência de um Deus e nosso relacionamento com Ele. Como a fé, a razão e a sede de conhecimento devem não somente ser o impulso que nos leva ao relacionamento com Deus, mas principalmente a forma de nos desenvolvermos na vivência de uma religião. Anselmo não procura conhecer para acreditar, mas por acreditar ele procura conhecer.

Neste sentido, a fé significa necessidade de transcendência e o conhecimento a própria forma de transcender. Se não tivermos fé, será impossível mergulhar no universo a ser conhecido, mas se não usarmos a razão estaremos à beira de uma prática religiosa repleta de contradições e fundamentalismos. Este conhecer, porém, não significa provar se Deus existe ou não. Como afirma Kierkegaard, é inútil tentarmos provar a existência de Deus, pois o ato de provar necessita que o objeto a ser provado tenha uma existência na natureza. Eu não provo que a pedra existe, mas que aquilo que existe é uma pedra. No tribunal não se prova que o ladrão existe, mas que aquele ser humano é um ladrão. A questão de conhecer a Deus não significa provar sua existência, mas sim ter abertura necessária para conhecer o que existe além de nossos horizontes, ter os sentidos abertos para o universo e nos aprofundar no sentido da vida.

Existem pessoas que pertencem a uma religião e justamente por pertencerem a ela deixam de se questionar sobre quem na verdade são, o que estão fazendo nesta existência e para qual direção estão caminhando. Se a religião não levar o ser humano a uma discussão, a uma reflexão racional profunda sobre as questões essenciais da vida, ela deixa de ser religião e passa a ser uma cartilha da mediocridade, deixa de ser caminho de transcendência e passa a ser expressão de medo e conformismo, deixa de ser amadurecimento para ser sentimentalismo barato com cantos, lágrimas e fenômenos “paranormais”.

A experiência religiosa, o acreditar em Deus, deve ser, antes de qualquer coisa, uma provocação à razão humana. Aqui nasce a verdadeira religião. Costuma-se colocar em oposição religião e filosofia, confiança e criticidade, fé e razão. Mas, na verdade, é o relacionamento entre fé e razão que nos faz não somente evoluir, mas principalmente chegar a conclusões importantíssimas: a nossa vida é apenas uma viagem e nós estamos somente de passagem por esta existência. Somos aventureiros neste mundo. Mas é necessário que esta viagem seja boa, seja uma viagem que nos dê prazer e felicidade, como também seja uma dádiva aos outros e ao universo. Depois de partirmos desta existência deixaremos este universo a outras gerações; portanto, é importante não somente conservá-lo, mas transformá-lo em um mundo melhor.

Nesta passagem por aqui, o maior valor que se deve proteger é a vida. O respeito e amor à vida e, portanto, a nós mesmos e aos nossos semelhantes, deve estar acima de qualquer norma humana ou religiosa. Nenhum ser humano e nenhum Deus pode criar estruturas ou normas que tornem o ser humano um objeto ou um escravo. Se Deus existe e nos criou, Ele nos fez seres racionais e, portanto, deve ser seu grande desejo que possamos usar a razão e viver em liberdade escolhendo racionalmente nossos caminhos e nos respeitando mutuamente. Neste sentido, tenha fé, mas não deixe de raciocinar; acredite em Deus, mas não deixe de questioná-lo; viva, mas dê um bom sentido a sua passagem por aqui; ame e respeite seus semelhantes, mas não se apegue demais a eles. Conheça o mundo, procure saboreá-lo, torne-o melhor com sua presença e faça uma boa viagem!

*Especial para o JC

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