A consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS) e de seu conhecido banco de dados, o DATASUS, permitiram uma mudança na análise da importância que os grupos ou causas de doenças e as chamadas morbidades – a moléstia propriamente dita – têm para a rede pública como um todo. Antes de 1995, quando o DATASUS começou a se consolidar, era possível saber as causas de mortalidade obtidas através do atestados de óbitos. Assim, uma determinada moléstia que não fosse tão letal, ainda que muito prevalente, poderia não ser valorizada.
Uma maneira de detectar o problema é a realização de estudos científicos com grandes populações, uma prática que só veio a se consolidar nas universidades brasileiras no final dos anos 90. Como o sistema de saúde privado não possui um banco de dados com informações, foi por meio da análise das internações nos hospitais do SUS que os pneumologistas passaram a alertar a sociedade sobre a necessidade da urgente viabilização de um plano nacional de combate às doenças respiratórias, especialmente asma e DPOC – Doença Pulmonar Obstrutiva crônica.
Eis alguns números que atestam porque esse plano se faz tão importante: no estado de São Paulo, em 2002, a mortalidade proporcional por causas respiratórias foi 12%, ficando em quarto lugar entre as sete causas principais; neste mesmo ano, as doenças respiratórias foram responsáveis igualmente por 12% das internações, segunda posição atrás somente de gravidezes e partos.
Uma análise das principais causas de internação por fatores respiratórios em São Paulo entre 2000 e 2005 registra 215.000 internações por asma. A média é de 35.000 internações por ano nos últimos cinco anos, com nítida variação sazonal nos meses de outono e inverno. São dados que confirmam os estudos de prevalência que vem sendo realizados no país que, dependendo da metodologia, mostram 20% de indivíduos com sintomas compatíveis com asma.
No ano de 2005 foram gastos aproximadamente R$ 10.600.000,00 só em São Paulo com internações por asma. E elas foram 20% (ou mais) superiores às internações por diabetes e hipertensão essencial, duas morbidades que possuem programas de distribuição de medicamentos gratuitos há muitos anos.
Portanto, creio que é necessário fazer justiça epidemiológica. Certamente a distribuição de medicamentos para asma grave (Portaria 1318 do Ministério da Saúde) foi um grande avanço, porém, ela atinge apenas aproximadamente 30% dos asmáticos. Órgãos públicos e privados precisam seguir o que muitas prefeituras pelo país já fizeram: implementar planos de combate à asma mais abrangentes que forneçam medicação e ensine a usá-la, até porque esta medicação deve ser necessariamente por via inalatória. Fechar os olhos para esta realidade que os pneumologistas conhecem bem, ou querer mitigá-la com a distribuição de broncodilatadores por via oral, só vai fazer com que mais e mais pacientes sejam internados, onerando muito mais pesadamente o SUS e os pagadores de planos de saúde.
O autor, Rafael Stelmach, é presidente da Sociedade Paulista de Pneumologia e Tisiologia