Cultura

Sobre mundos: Dicas para o prazer

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

O rei mandou chamar o bobo da corte e lhe entregou um anel valioso dizendo: “A partir de hoje você irá procurar alguém que seja mais bobo que você. Ao encontrá-lo, você lhe dará este anel como presente”. O tempo passou, o rei envelheceu e chegou à beira da morte. Pouco antes de morrer, o bobo da corte entrou em seu quarto e lhe perguntou: “Durante o seu reinado, você conseguiu ter prazeres e alegrias e ao mesmo tempo possibilitar prazeres e alegrias aos seus súditos?” O rei pensativo respondeu: “Eu tive uma vida de rei, boa comida, mulheres bonitas, meu castelo, mas também muita dor de cabeça ao governar. Eu não sei se, ao mesmo tempo, tive prazer e ofereci prazer aos meus súditos!” O bobo da corte, então, enfiou a mão no bolso e retirou o anel entregando ao rei dizendo: “Você merece, então, este presente. Afinal, você conseguiu ser mais bobo do que eu!”

O ser humano não é somente um ser racional, mas principalmente um ser sensual. Em outras palavras, somente através de nossos sentidos tomamos contato com o nosso universo e podemos captá-lo de uma forma agradável ou desagradável. Se somos seres saudáveis não desejamos o sofrimento e procuramos viver de uma forma prazerosa. Para os filósofos hedonistas, nós atingimos o prazer de viver através do equilíbrio entre corpo e alma.

Epicuro deixa claro que ao estabelecer em sua filosofia o prazer como o princípio maior, não está pensando no chamado “prazer egoísta”, mas na liberdade da dor e do sofrimento para a tranqüilidade do espírito humano. Em outras palavras, para Epicuro beber até se embriagar perdendo o controle da razão, colocando em perigo a si próprio e aos outros, não é, de forma alguma, o prazer a ser procurado. Para alcançar o verdadeiro prazer nas coisas é necessário o equilíbrio entre razão e corpo. Neste processo não somente os sentidos devem nos mostrar o que é prazeroso, mas a razão deve nos ajudar a escolher o momento certo de saborear e encontrar a quantidade necessária para que o prazer não se transforme em um desprazer ou em uma tragédia.

Juntamente com este verdadeiro “diálogo” entre corpo e razão encontramos a segunda dica dos hedonistas para um viver prazeroso: a descoberta da medida certa. Ao contrário dos animais, que não possuem exatamente o senso de medida, não conseguem prever a tristeza da falta e o perigo do excesso, o ser humano no que diz respeito ao sentir o universo possui a capacidade de encontrar a medida certa para todas as coisas. E justamente a questão da medida é uma necessidade primordial para o encontro do prazer.

O ser humano possui o desafio de, na experiência de saborear aquilo que gosta, encontrar a medida que faça a quantidade ser substituída pela qualidade oferecendo a si próprio, e ao momento vivenciado, um sentido mais profundo e mais satisfatório. Assim, uma refeição deixa de ser uma simples forma de eliminar a fome, mas passa a ter outros significados para o ser humano. Como também, a nossa produção mental, os frutos da imaginação e do raciocínio podem adquirir um prazer sensual.

A terceira dica é compreender que os prazeres sensuais que a vida nos oferece não são ofensas a Deus, afinal foi Ele que nos criou seres com sentidos. O necessário é compreender, diz Epicuro, que o prazer oferecido pelos sentidos só se torna completo quando integrados a uma vida justa e racional. Em outras palavras, o prazer individual só é realmente completo quando conseguimos com que este prazer não seja um desprazer aos outros. A minha felicidade não deve ser construída sobre a desgraça dos outros. Mais do que isso, o grande prazer da vida está em fazer com que o nosso prazer também seja o prazer do outro. Como deve haver um equilíbrio entre razão e sentidos, é necessário se alcançar também um equilíbrio entre a minha realização pessoal e a de meus semelhantes. O ser humano deve buscar sua satisfação de viver ao mesmo tempo que possibilita a satisfação dos outros.

Para isso, o senso de justiça é fundamental. Ninguém é totalmente feliz se constrói uma vida de resignação e anulação em favor da felicidade dos outros. Mas ninguém pode ser realmente feliz se tem consciência de que não está contribuindo em nada para a felicidade das pessoas que o circundam. O verdadeiro e duradouro prazer surge do equilíbrio em ceder à vontade do outro sem se esquecer de sua própria vontade. Ser justo é saber ser feliz e, ao mesmo tempo, fazer os outros também felizes. Afinal, eu só faço os outros felizes quando eu também sou feliz e eu sou realmente feliz quando tenho condições de contribuir para a felicidade de meus semelhantes. Para isso é necessário ser sensível ao que é prazeroso, mas também pensar que eu não sou o único no mundo que deseja ser feliz e ter prazer.

Comentários

Comentários