Nacional

SP vibra com U2

Por Thiago Ney | Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

Todos os detalhes são muito bem ensaiados. A hora de correr para a passarela, de fazer um discurso, de puxar alguém para o palco. E deu certo. A comunhão entre as 73 mil pessoas que, segundo os organizadores, foram ao Morumbi anteontem à noite e o U2 foi ainda mais catártica e impressionante do que a primeira passagem da banda por São Paulo, em 1998, no mesmo estádio.

Simpático e populista, Bono falou bastante. “U2 é irlandês. Deus é brasileiro”, gritou, no início do show. E continuou, num português meio enrolado. “Copa do Mundo. Vamos para o hexa.” Sim, “vamos”. Se Deus é brasileiro, Bono também é. O palco montado no Morumbi foi algo jamais visto no país. Um enorme telão formado por 12 mil pequenas lâmpadas mostrava cada movimento da banda com nitidez.

Programada para iniciar às 21h15, a apresentação começou às 21h39, com “Wake Up”, música dos canadenses Arcade Fire que costumeiramente vem abrindo a turnê dos irlandeses. Em seguida, apareceu Bono, vestindo uma jaqueta com a bandeira brasileira nas costas. “City of Blinding Lights”, canção do mais recente CD do U2 (“How to Dismantle an Atomic Bomb”), abriu o show. A potente “Vertigo” veio logo depois. O vermelho dava o tom, tanto nas imagens do telão como no figurino dos músicos. Quando a canção terminou, o povo entoava “U2, U2”. “Oi, galera. Agora é a nossa vez”, manda Bono em português antes de “Elevation”. E mais: “Obrigado, Franz Ferdinand. No ano que vem, estaremos abrindo para vocês.”

Claro que não. Show grande assim é para banda que tenha hinos, e U2 tem de sobra: “New Year’s Day”, “I Still Haven’t Found What I’m Looking For” (dedicada a Quincy Jones, que, segundo Bono, estava no estádio), “Beautiful Day”... Um após o outro, em menos de uma hora de show. Depois de o cantor ter puxado um “ai, ai, ai, está chegando a hora”, uma pequena bateria foi montada em uma das extremidades de uma passarela. Larry Mullen Jr., o baterista, mudou-se para lá. Adam Clayton, o baixista, foi para a outra passarela. Bono e The Edge ficaram no palco.

Depois, os dois juntos seguiram pelas passarelas. Tudo certo para entrar “Sunday Bloody Sunday”, com Bono batucando na microbateria. Na seqüência, o showmício ganha contornos definitivos: surge no telão uma leitura da Declaração dos Direitos Humanos. A cada intervalo de canção, o público continua gritar “U2, U2”. “Miss Sarajevo”, que originalmente tinha Luciano Pavarotti cantando junto com Bono, detona o momento de isqueiros e celulares ao alto. No final da canção, Bono puxa um garoto ao palco. Trêmulo e sem voz, ele canta alguns versos da música.

Bono levanta a bola da América Latina. Cita países da região. Quando diz “Argentina”, o estádio vaia, assim como quando uma foto de Bush apareceu no telão. Fim do primeiro bis. No segundo, tocam “All Because of You” e “Original of the Species”. Antiga, “40” também aparece. Todos cantam. O show, apoteótico, acaba ali, às 23h55.

Do lado de fora do Morumbi, centenas de fãs já se abrigavam para aguardar o segundo show da passagem brasileira da banda, programado para a noite de ontem.

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Transmissão

Carnaval, jogos de futebol, Rolling Stones no Rio e agora o U2 em São Paulo. Não há como negar que a Rede Globo sabe o que faz quando o assunto é a transmissão de grandes eventos. No entanto, a emissora parece não saber aprender com as próprias pisadas na bola. Com quase duas dezenas de câmeras espalhadas pelo Morumbi, assim como no palco dos Stones em Copacabana, a edição dos shows teve momentos brilhantes e cenas que dificilmente algum fotógrafo conseguiu registrar.

Por outro lado, ter muitas opções de ângulos diferentes não significa que o espectador precise assistir a todos em menos de 20 segundos. Assim como – especialmente – na abertura do “Bigger Bang” dos roqueiros veteranos no RJ, a edição do show do U2 teve momentos frenéticos, quase epilépticos, com imagens que não chegavam a durar um segundo na tela – e muda de câmera, muda de novo...

A abertura longa de Zeca Camargo foi desnecessária, mas habitual, já que deve existir alguma regra na emissora de que é preciso ter alguém falando “dados imprescindíveis” enquanto o espectador já poderia aproveitar as imagens do evento. Vide o Carnaval. Assim, o público perdeu a música de abertura e os primeiros acordes de “City of Blinding Lights”. A boa qualidade das imagens e do som, no entanto, e a forma completa com que o show foi apresentado, incluindo os típicos discursos de Bono, valeram o espetáculo para quem aproveitou a área VIP de sua sala para assistir à “Vertigo Tour”.

Da Redação

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