Lula perdoou. E o fez com a sincera convicção de que, se matar é um ato humano, qualquer coisa que os dirigentes do PT tenham feito de errado faz parte da natureza humana, merecendo perdão. Portanto, nenhum petista deve baixar a cabeça. E o partido não tem por que se humilhar. Embalado pela letra do samba “levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”, eufórico com as pesquisas que o põem na dianteira do processo eleitoral, encantado com a silhueta menos encorpada, Luiz Inácio festejou os 26 anos do Partido dos Trabalhadores, sob um clima de entusiasmo que reabre o cenário de continuidade na cadeira presidencial, reanima as bases petistas, reacende o ânimo de governistas e deixa nervosas as oposições. Pula no palanque reeleição, embora negue isso, e, com onipotência majestática, empurra para o alto o índice de banalização da imoralidade no País ao dizer, sem nenhum escrúpulo, que “errar é humano”, mesmo que o erro referido tenha sido a maior roubalheira da história contemporânea de nossa política.
Não se pode ser indulgente com o crime. Mas esta é a sensação que se filtra quando Lula convoca os petistas a andarem de cabeça erguida, dando vazão à estratégia de amaciamento das denúncias contra o PT, pela qual todos os partidos erram quando pegam recursos para o caixa 2. O presidente insiste em ignorar os limites entre a liturgia do poder, da qual é, por excelência, o maior usuário nacional, e a identidade petista. Lembre-se que Lula nunca concordou com a existência do mensalão. Desqualificando a denúncia, ensina que a vergonha petista não deve ser tão grande a ponto de justificar cabeça enfiada na toca.
Vivo, o velho Ulysses Guimarães poderia retrucar com um dito de sua predileção: “Uma pessoa 99% honesta é 100% desonesta, porque não existe honestidade parcial”. Quanto à lembrança de que errar faz parte da natureza humana, vale lembrar ao presidente que “persistir ou esconder o erro é mais humano ainda”. A adição ao provérbio até reforça a tese presidencial de que os dirigentes petistas, ao esconderem o delito, foram radicalmente humanos. Perdão para eles.
Vale ainda perguntar: será que o mandatário-mor, ao perdoar o PT, não quis se inspirar em São Tomás de Aquino, para quem os bens dos mais ricos devem ser repartidos com os mais carentes? O santo pregava que os necessitados poderiam apropriar-se de coisas exteriores, hipótese que arrematava com o pensamento de que a vida do pobre prevalece sobre a superabundância do rico. Assim, uma pobre mãe faminta, com três filhos nos braços, poderia “subtrair” da gôndola de um supermercado uma barra de chocolate para saciar a fome (quando isso ocorre, as câmaras de TV flagram a mulher, que sai algemada para a prisão). A atitude seria justificada pela extrema necessidade de sustentar a vida moral. O que é bem diferente da apropriação imoral da coisa publica, denúncia da qual o PT procura se desvencilhar.
A disputa eleitoral, já iniciada com a intensa mobilização dos pré-candidatos, é responsável por tons mais agudos na escala das acusações recíprocas. Também se pode dizer que a teia de corrupção que está sendo desvendada (plenamente?) não abriga apenas o território petista. Atores de quase todos os partidos - inclusive do PSDB - estão envolvidos ou na rede do mensalão ou no esconderijo do caixa 2. Porém, ainda para ser justo, não há como deixar de reconhecer que o PT e seus dirigentes foram os responsáveis pelo furacão. O valerioduto e outros dutos de propina, objeto central da crise, nasceram dentro do partido de Lula. E é aqui que entra em cena a figura do presidente da República. Ele não pode e não deve se prestar ao papel de espanador de poeira. Trata-se de um desvio ético usar o poder que detém para limpar as cinzas que sujam seu partido. Aliás, um partido que morde e assopra o corpo central do governo, que é a política econômica. Não há como resistir à impressão de que, ao perdoar os erros do PT, Lula está dando uma banana para a sociedade.
O autor, Gaudêncio Torquato, é jornalista, professor titular da USP e consultor político