Toda vez que o governo resolve interferir nas regras de mercado sai besteira. Pior: o povo paga pelo erro cometido. É o caso do álcool combustível, que vinha subindo de preço por causa da entressafra da cana. A lei da oferta e da procura não pode ser revogada simplesmente porque as autoridades que gerenciam a economia pública querem segurar os preços. Determinaram a diminuição da quantidade de álcool adicionado à gasolina e este derivado do petróleo também subiu de preço. Falhou o objetivo de castigar os usineiro fazendo sobrar álcool no mercado.
Nos anos 70, houve dois choques de preço do petróleo decorrentes de guerras no Oriente Médio. O Brasil desenvolveu tecnologia própria e lançou o Proálcool, programa governamental de incentivo à produção em escala de um novo combustível capaz de substituir a gasolina. Louve-se o presidente Ernesto Geisel que, se errou na compra de usinas atômicas e perdeu a chance de redemocratizar o País, acertou em cheio ao implantar um projeto totalmente brasileiro, hoje invejado mundo afora. Como tudo o que dá certo precisa ser desconstruído, só para chatear, o governo abandonou o programa no início dos anos 90, quando 80% dos automóveis já eram movidos a álcool. Em pouco tempo, milhões de carros passaram a fazer fila nos postos; outros tantos simplesmente tinham de ser deixados na garagem por não haver álcool suficiente para abastecê-los.
O Proálcool caiu, assim, no descrédito junto ao consumidor e as montadoras deixaram de fabricar automóveis com motores adaptados ao combustível. Destilarias foram fechadas, milhares de postos de trabalho desapareceram. Não se deu importância ao fantástico balanço de benefícios econômicos e ambientais resultantes do programa. Em duas décadas, o Brasil deixou de importar 550 bilhões de barris de petróleo, economizando US$ 11,5 bilhões, e deixou de poluir a atmosfera com 110 milhões de toneladas de dióxido de carbono (Boletim Petrobrás, outubro/2005).
Apesar disso tudo, o País de novo submeteu-se ao predomínio da gasolina. Faltou-lhe visão estratégica. Agora, o álcool arribou porque se transformou num cobiçado produto de exportação e o preço do açúcar está num patamar apetitoso. Nada mais justo que os produtores queiram aproveitar o bom momento para cobrir prejuízos do tempo das vacas magras. Deixe que ganhem. A vantagem do capitalismo é o que o capital pode nos oferecer de bom: o lucro. A ambição é que faz o mundo progredir. Ninguém pode negar que a cana-de-açúcar promove a expansão do agronegócio, cria postos de trabalho no interior do Brasil e gera riquezas que movimentam a economia. Muita gente também ganha sem ter terras, plantar ou moer cana.
E por não termos compreendido a importância estratégica do álcool, estamos agora diante do segundo episódio desastroso da crise que o envolve. O governo faz arte de desorganizar a produção que levou dez anos para ser recuperada. Justamente no momento em que cresce o consumo interno e existe um aumento de demanda no mundo interessado em libertar-se da dependência do petróleo e de poluir menos face aos compromissos do Protocolo de Kyoto.
Se o governo quer interferir no mercado, que o faça de forma mais inteligente. A formação de estoques reguladores é saída civilizada para evitar ameaça de escassez na entressafra, com a conseqüente explosão de preços nas bombas, como está se dando agora. Mais graves que perdas momentâneas impostas ao consumidor é o prejuízo em confiança e credibilidade que o governo produz no mercado. A desorganização da produção, uma vez ocorrido, é difícil de solucionar e custa caro para a nação.
O Carnaval acabou e é tempo de recuperar a sobriedade. Álcool pode até nos dar momentos de euforia, mas deve ser usado com moderação, como adverte a própria autoridade.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC