Bairros

‘Bichos’ plantam 300 árvores em rios

Lucien Luiz
| Tempo de leitura: 3 min

No lugar da mata ciliar, uma extensa faixa de terra degradada por entulhos que ameaçam a preservação dos córregos Água da Forquilha e Água da Ressaca, na Vila Zillo, em Bauru. Para tentar recuperar a área, 30 calouros do curso de biologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), os “bichos”, que participaram de trote ecológico plantaram cerca de 300 mudas de árvores nativas no trecho.

Entre elas estão aroeira-pimenteira, ingá, peroba, jequitibá e angico, todas típicas da região. A iniciativa foi dos alunos veteranos de biologia da Unesp em parceria com o Instituto Ambiental Vidágua. O objetivo, segundo o biólogo da ONG, Ivan De Marchi, é evitar trotes violentos e proporcionar aos calouros um contato mais direto com ações ambientais.

“Tentamos passar aos alunos, antes mesmo deles começarem realmente a faculdade, uma experiência de recuperação de área degradada. Enfocamos a diversidade de espécies (de árvores) e questões técnicas e específicas do curso”, comenta De Marchi.

A área do plantio faz parte de uma propriedade particular que foi agredida por conta do uso impróprio do solo, como depósito de entulhos. Conforme o biólogo, as mudas, que devem chegar à idade adulta dentro de sete a 15 anos (dependendo da espécie), vão reconstituir a mata ciliar dos córregos, protegendo as águas de erosões, assoreamentos e do lixo.

O local também foi beneficiado recentemente com a instalação do interceptor de esgoto, tubulação destinada à coleta de dejetos domésticos, evitando que sejam lançados aos córregos. Para o calouro Artur Alcântara Madeira, 19 anos, o trote ecológico é uma alternativa essencial à conscientização, não só dos estudantes recém-chegados à universidade, mas também da população em geral. “Iniciativas como essa precisam ser feitas, são importantes ao meio ambiente e às pessoas também. Embora seja um gesto pequeno de preservação, acho que vale para atingir outras pessoas”, destaca.

A também estudante do primeiro ano de biologia da Unesp, Júlia Bette Homem de Mello, 17 anos, considera a atividade como uma opção sadia de recepcionar os “bichos”. “É muito válida, principalmente para a gente, que está entrando no curso agora. Acho bem melhor esse tipo de trote do que aqueles tradicionais, que nos fazem pagar mico no meio da rua”, completa.

As mudas plantadas foram fornecidas pelo Vidágua, que produz cerca de 150 mil ao ano. Semana passada, segundo De Marchi, a ONG organizou trote semelhante com os calouros dos cursos de odontologia e fonoaudiologia da Universidade de São Paulo (USP) em Bauru. A atividade foi uma visita ao Jardim Botânico.

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Conscientização

A Unesp intensificou, desde o fim do ano passado, a conscientização de seus alunos veteranos sobre a prática do trote. O vice-diretor da Faculdade de Ciências da universidade, João Pedro Albino, coordena uma campanha que visa orientar os alunos sobre os riscos da prática, que inclusive já ocasionou inúmeros incidentes. Em 2005, por exemplo, uma caloura do curso de educação física sofreu queimaduras pelo corpo por conta da tinta com que foi pintada durante o trote.

Segundo Albino, foi aberta uma sindicância interna na universidade para identificar os responsáveis. O processo ainda está em andamento, porém, de acordo com o vice-diretor, os culpados já foram identificados. Eles podem ser suspensos ou até expulsos da instituição.

“Queremos quebrar o paradigma do corte de cabelo e da pintura que os calouros sofrem. É preciso que esse tipo de atividade seja substituído por práticas esportivas, ecológicas e outras que também sejam sadias”, diz Albino. Conforme ele, neste ano, nenhum trote violento foi registrado na universidade.

Os novos alunos, conta o vice-diretor, foram recepcionados nesta semana com uma série de atividades educativas, como palestras sobre aids e doenças sexualmente transmissíveis, e peças teatrais que abordaram a vida de estudantes que deixaram a família para cursar faculdade em outra cidade.

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