Washington - O tribunal de crimes de guerra da ONU divulgou ontem o resultado preliminar de um relatório toxicológico holandês segundo o qual não havia traços de veneno ou de alta concentração de medicamentos no corpo do presidente iugoslavo Slobodan Milosevic, morto no último sábado em sua cela em Haia (Holanda).
A divulgação, feita pelo presidente do tribunal, juiz Fausto Pocar, serve como defesa contra as acusações de que Milosevic não teria recebido tratamento adequado na prisão da ONU antes de morrer em decorrência de um infarto do miocárdio. “Se Milosevic estivesse em um hospital, ainda estaria vivo”, respondeu Branko Rakic, advogado do presidente.
A defesa havia pedido que Milosevic fosse transferido a um hospital russo, o que a ONU negou. Milosevic chegou a enviar uma carta ao governo russo reclamando do tratamento que recebia.
A Rússia enviou legistas próprios para confirmar a causa da morte do sérvio. Um relatório elaborado em 12 de fevereiro - um mês antes da morte - pelo toxicologista holandês Donald Uges havia detectado a presença do antibiótico Rifampicina, que corta o efeito das drogas para o coração que Milosevic tomava. Uges disse que o acusado poderia ter tomado a rifampicina deliberadamente para agravar sua situação e forçar a ida à Rússia.
O relatório divulgado ontem atesta que não havia traços de rifampicina no organismo do ditador, o que significa que, pelo menos nos dias imediatamente anteriores à morte, ele não havia ingerido a substância.
Enterro
O Partido Socialista sérvio, que organiza o funeral de Milosevic, anunciou que a viúva do ditador, Mirjana, e seus filhos não comparecerão à cerimônia de amanhã. “É definitivo”, declarou Milorad Vucelic, vice-presidente do partido. Mirjana, vista como eminência parda do governo do marido, é alvo de um mandado de prisão por abuso de poder e acusada de mandar matar adversários de Milosevic.
Embora o mandado tenha sido suspenso para o enterro, a viúva, que mora na Rússia, teme perder seu passaporte ao entrar em Sérvia e Montenegro. Enquanto a sepultura era preparada em Pozarevac, cidade natal de Milosevic e Mirjana, em Belgrado o corpo exposto do líder sérvio atraiu menos visitantes do que esperado. Foram cerca de 70 mil pessoas em dois dias.
Milosevic estava preso enquanto corria o processo internacional em que ele respondia por 66 acusações relacionadas a crimes de guerra, incluído genocídio. Ele comandou os sérvios durante as guerras internas da antiga Iugoslávia nos anos 90, em que grupos étnicos foram perseguidos.