Exatas 18 horas de tensão. Esse foi o período em que o agente penitenciário de Bauru Joel Freitas da Silva, 33 anos, que atualmente trabalha na penitenciária de Franco da Rocha (região metropolitana de São Paulo), ficou como refém. A rebelião começou na última segunda-feira, dia 20, às 19h30 e só terminou às 13h30 do dia seguinte, quando as negociações com a polícia tiveram êxito. Durante essas 18 horas, sentimentos de medo e terror tomaram conta da mente dele. “Fiquei com muito medo. No começo não fiquei muito nervoso, mas depois meu corpo tremia e suava frio”, conta Silva, que não sabe se retornará ao trabalho.
Contrastando com as lembranças ainda recentes de medo e desespero, ele recorda do companheirismo dos colegas de profissão. Enquanto a rebelião “estourava” no pátio e celas da penitenciária 3, agentes penitenciários da ativa e aposentados acompanhavam do lado de fora as negociações, dando apoio aos reféns.
Mais calmo e em sua casa, no Núcleo José Regino, em Bauru, Silva lembra-se de detalhes do motim que teria começado em solidariedade aos detentos da cadeia de Iperó (240 quilômetros de Bauru), que se rebelaram no dia 19.
Na segunda-feira, pouco antes das 19h, através de telefone celular, os detentos teriam recebido uma ordem da facção criminosa do Primeiro Comando da Capital (PCC) para iniciar a rebelião. “Estava tudo tranqüilo. Não esperávamos o motim”, conta Silva.
Às 19h20, os detentos da penitenciária 3 estavam prestes a jantar. Os presos da “faxina”, como são chamados aqueles responsáveis pela limpeza e alimentação, começaram a distribuir as marmitas nas celas quando um funcionário foi empurrado e começou uma correria.
Com facas nas mãos, os presos renderam Silva - o primeiro refém do total de 17. “Joel, não corre que não vai acontecer nada com o senhor”, ouviu. A porta de acesso foi aberta e os detentos saíram correndo para a galeria. Silva foi levado para lá, ouvindo tiroteio por todos os lados. Os agentes de escolta que permanecem na muralha da penitenciária atiravam, na tentativa de coibir a rebelião.
Silva foi levado para uma cela do raio 5 e permaneceu lá até a manhã da terça-feira. Durante a noite, quando as negociações foram interrompidas, ele conseguiu relaxar um pouco. Apesar da tensão, conseguiu se alimentar. “Comi um mingau que eles serviram, mas mesmo assim tinha medo de estar envenenado. Eles me deram bolacha, suco e tentavam me acalmar”, conta.
Na manhã do dia seguinte, Silva foi retirado da cela e juntou-se a outros agentes penitenciários. Trocaram as roupas que estavam usando pelas dos presidiários. Foi por volta das 10h que Silva passou pelos piores momentos do motim. “Eles queriam ‘ganhar’ o telhado porque a imprensa estava toda lá, em helicópteros. Em meio ao tiroteio, subimos no telhado”, conta. Os presos tentaram acalmá-lo, mas não foi poupado da violência. “Um preso me pegou e com uma faca bateu no meu rosto três vezes. Esse foi o momento de maior terror. Eles falavam que iam matar todos nós. Ameaçaram jogar a gente de cima do telhado, com a faca no nosso pescoço”, conta.
Tropa de choque
No telhado, o agente penitenciário bauruense ficou aproximadamente 20 minutos. Quando desceram, Silva e outros agentes foram levados para uma cela, enquanto as negociações com a polícia foram retomadas. Em meio ao nervosismo dos próprios presos – muitos deles drogados – Silva ouviu promessas de morte. “Eles falavam o tempo todo que se a tropa de choque (da polícia) entrasse, ninguém seria poupado”, diz. “Eles têm muito medo da tropa de choque por causa do que aconteceu no Carandiru. Quando eles (tropa) entram, os presos perdem toda a razão e matam os que estiveram na frente”, conta.
Em seguida, em outro momento de tensão, Silva era o primeiro de uma fila quando um dos presos pegou-o pelo braço e ordenou que usasse uma camisa amarela de presidiário. “Sabia que seria o primeiro a ficar na frente da tropa de choque e meu organismo começou a reagir em defesa. Fiquei enjoado e quase vomitei. Não estava mais emocionalmente são”, desabafa. Cambaleando, Silva obedeceu a ordem do detento e estava caminhando quando começou a vomitar. “O cara disse para eu correr para o banheiro. Eles pegaram outro funcionário e levaram-no para a frente da porta com uma faca no pescoço”, conta.
Nessa hora, os detentos transferiram os agentes para outra cela, mas Silva foi levado para um local separado. “Eles falaram que ali eu estaria tranqüilo e nada me aconteceria”, conta. Por volta das 13h30, ouviu gritos: “PCC, unidos venceremos”. Em seguida, um dos presos foi até a cela e avisou que a rebelião estava encerrada. Todos foram levados em fila para a frente da penitenciária, chorando e se abraçando.
Afastamento
Após ser liberado, Joel Freitas da Silva foi encaminhado ao pronto-socorro. No dia seguinte, quarta-feira, voltou a Bauru para rever os familiares e fazer exame de perícia médica. Ele ficará 15 dias afastado do trabalho.
O agente penitenciário trabalha em Franco da Rocha há oito meses e desde então tenta transferência para o Centro de Detenção Provisória (CDP) em Bauru – já que sua família continua na cidade. “Se não for transferido, não sei o que farei. Os colegas dão apoio dizendo para não exonerarmos do cargo, mas ainda não decidi”, afirma.
Antes da rebelião, a penitenciária 3 de Franco da Rocha, com capacidade para 864 pessoas, abrigava 1.192 presos. “Alguns ficam amontoados, mas tem celas com poucos presos. Eles decidem onde cada um dorme”, diz. Silva também conta que existe respeito dentro da penitenciária. “Eles (presos) chamam a gente de senhor e gostam de conversar”, diz. Mas quando contam suas experiências, não têm pudor. “Matar ou roubar são assuntos freqüentes. Eles (detentos) contam que mataram uma pessoa com a mesma naturalidade que contam ter ido ao shopping fazer compras. A gente ouve e tenta não julgar”, conta.