Um pianista e um monge caminhavam juntos. Em um determinado momento, o pianista disse ao companheiro: “Comigo é assim. Se eu deixo de praticar um dia, eu percebo na hora de tocar. Se eu deixo de praticar dois dias, os meus amigos músicos percebem. Mas se eu deixo de praticar três dias, o público acaba percebendo”. O monge com um sorriso completou: “Praticamente a mesma coisa acontece comigo. Se eu deixo de rezar um dia, Deus percebe. Se deixo de me encontrar com Ele por dois dias, eu percebo. Mas se deixo de rezar três dias, todo meu ambiente acaba percebendo!”
A grande contribuição da modernidade para a vida humana foi a percepção de que o ser humano pode sempre superar os seus limites. Até o século 16, a humanidade possuía um mundo interessante, mas sem unidade. Os continentes e as culturas mantinham-se extremamente distantes não somente pela geografia, mas também pela limitação na locomoção, na falta de convivência com o diferente. Das grandes navegações, passando pela revolução industrial, pelo avanço tecnológico, até chegarmos ao mundo da globalização, o ser humano desenvolveu um processo cada vez mais acelerado de superação dos limites estabelecidos.
Neste sentido o capitalismo foi um grande vencedor. O mercado foi vencendo todas as barreiras e superando todos os limites no que diz respeito à transformação de tudo em mercadoria e nos espaços em mercado de consumo. Mesmo os movimentos “contra-cultura”, os movimentos que se opunham ao capitalismo, foram sendo absorvidos pela sociedade de consumo, transformados em mercadoria ou adaptados às leis do capital.
Mas não é somente a economia um exemplo da mentalidade emergente da modernidade. O rompimento dos costumes e dos padrões de relacionamento foram sendo superados com o passar do tempo. O ser humano foi percebendo que a padronização do comportamento não condiz com a nossa própria natureza humana. Por ser um indivíduo, o ser humano necessita viver em liberdade para escolher seu próprio estilo de vida, no qual se sinta realmente feliz. A superação dos limites fez com que o ser humano percebesse que era capaz de construir o universo a seu modo e da forma como deseja.
Se, para o mundo pré-moderno, a superação dos limites era impossível, graças às distâncias geográficas, dificuldade de locomoção, dogmas religiosos, tabus e costumes rígidos, superar os limites tornou-se indispensável a partir da modernidade. Hoje chegamos à possibilidade da construção de uma sociedade na qual vários limites podem ser ultrapassados, mas ao mesmo tempo na qual os limites devam obrigatoriamente ser discutidos.
Sem dúvida alguma, é saudável saber que não somos como os outros animais, ou seja, simplesmente condicionados às muitas leis naturais. Porém, se descobrimos que sempre podemos dar “um passo à frente”, superando a situação na qual nos encontramos, se torna fundamental raciocinar o que desejamos alcançar com a superação de nossos próprios limites. Talvez a questão mais séria para o ser humano no século 21, tanto na esfera individual como na social, seja o sentido da superação dos limites.
Em outras palavras: para que a desmedida? O que pretendo alcançar, para onde desejo ir, qual o benefício que procuro ao ultrapassar os limites estabelecidos? Estas são questões fundamentais em qualquer nível da vida humana, seja ela pessoal, científica, social, política ou econômica. O fundamental é a reflexão ética sobre as perdas e ganhos, a própria razão de ser de nossos horizontes abertos. Aristóteles escreveu certa vez que o homem se encontra entre Deus e a besta. Em outras palavras, o ser humano possui potencialidades ilimitadas dentro de si e uma fundamental vontade que o impulsiona para o novo, mas ao mesmo tempo sem o uso da razão ele é capaz de se auto-destruir de uma forma extremamente eficaz.
Na convivência social, a superação dos limites é uma qualidade. Muitas formas de limitação nos transformam em verdadeiros escravos de estruturas, instituições, ideologias ou simplesmente convencionalismos sociais. Mas romper os limites nos obriga não somente a pensar sobre o que desejamos alcançar, como também a respeitar quem deseja viver em limites já pré-estabelecidos. As inovações, os novos costumes e a transformação de paradigmas não podem significar a restrição da liberdade de outros.
Portanto, juntamente com o questionamento sobre o sentido da superação dos limites é necessário se desenvolver a capacidade de negociar os limites seja no âmbito privado, como por exemplo, no relacionamento conjugal, entre amigos ou companheiros de trabalho, seja na sociedade, entre grupos sociais, políticos e religiosos. A liberdade, a consciência do que fazemos e o respeito mútuo diante das atitudes formam a base obrigatória para uma verdadeira coexistência. Mas coexistir significa mais do que existir ao lado. A coexistência é uma prática diária de uma feliz e dinâmica “com-vivência”. Conviver exige uma verdadeira troca de experiências para o enriquecimento de todas as partes.