A estudante Ana Laura Litrento Sartor, 13 anos, recebe R$ 50,00 por mês de seus pais para bancar seus gastos pessoais. O valor corresponde a pouco mais de R$ 10,00 por semana, quantia que quase sempre é engordada pelo avô.
“Uso o dinheiro para comprar coisas para mim, principalmente perfume e produtos de beleza. Gosto muito de CD, roupas e sapatos. Nem sempre o dinheiro dá”, comenta a adolescente.
Seus pedidos, no entanto, são controlados pela mãe, a administradora Mônica Litrento, 37 anos. Segundo ela, tudo é negociado com Ana Laura. “Para receber essa mesada, ela tem que tomar conta do irmão (João Pedro, 5 anos) até eu e meu marido chegarmos do trabalho. É uma troca que fazemos”, explica.
O bom comportamento também é requisito básico para os pais cederem às vontades da filha. “Antes de atender ao pedido dela, analisamos como tem se comportado. Quando age como uma boa menina, compramos o tênis que ela quer, colocamos crédito no celular, a manicure fica por nossa conta, enfim, procuramos corresponder”, diz a mãe.
A mesma situação é vivida pela publicitária Estela Jarussi, 37 anos, que tenta administrar a vida financeira da filha Júlia, de 9 anos. A garota ganha dos pais R$ 10,00 por semana, quantia que, segundo a mãe, nunca é suficiente.
“Ela pede dinheiro todos os dias, principalmente para ir ao cinema ou tomar lanche com os amigos. Nunca é suficiente, sempre quer mais”, reclama.
Além de bancar os gostos da filha, que quase sempre não são supridos pela mesada de R$ 40,00, a publicitária contabiliza os gastos com escola, roupas e calçados que a filha não leva em consideração na hora de pedir mais ou dizer que não ganha nada dos pais.
No entanto, a mãe de Júlia estabelece regras para atender aos pedidos da filha. Bom comportamento e boas notas na escola são fundamentais para que ela comece a pensar na possibilidade de comprar o que Júlia pede. Estela, porém, leva em conta, sobretudo, a necessidade do que a filha diz precisar.
“Ela não vai receber as mesadas de março e abril porque quis uma bolsa, sem necessidade, para voltar às aulas. Então, eu adiantei a mesada para que ela pudesse comprar a mochila. Portanto, se ela quiser alguma coisa que não esteja precisando, tem que comprar com o dinheiro dela. Cedemos tudo com cautela e na medida do possível”.
Embora obedeça as regras da casa, Júlia as desaprova. “Queria ganhar mais (dinheiro). Estou precisando de um óculos novo. Esperar para receber é muito ruim”, contesta.
Mas como fazer para ensinar os filhos a dar o devido valor ao dinheiro? Para a economista Cássia D’Aquino, é essencial que as pessoas sejam ensinadas a valorizar o dinheiro desde crianças. Ela frisa que esse trabalho, porém, deve começar no âmbito familiar, já que defende que a influência dos pais é decisiva na vida dos filhos.
“O ideal é que a família confira a educação e a escola dê o reforço, porque as crianças passam cada vez mais tempo na escola. Atribuir esta educação apenas à escola não levará a nenhum resultado. O máximo que se poderá conseguir é alguma provocação na criança, mas o bom resultado só será possível através da família”, destaca.
D’Aquino diz que até os 6 anos de idade é a fase ideal para que as crianças comecem a ser orientadas sobre o assunto. Antes dessa idade, ressalta a economista, é normal que os pequenos peçam presentes, escolham a roupa que querem usar. Porém, cabe aos pais compreender que esta é uma expressão da criança no exercício de se colocar como pessoa, faz parte do desenvolvimento. Não se trata de personalidade forte, como muitos pais costumam achar, observa ela.
“Se a criança, aos 2 anos por exemplo, escolher que roupa vai vestir e o pai entender essa atitude como a de um consumista, faz-se o problema. Se antes dos 9 anos a criança apresentar um consumismo exacerbado, ou seja, só quer vestir roupa de tal grife, há algo de errado. É a forma como os pais irão lidar com esta etapa do desenvolvimento que vai criar o consumista”, completa.