O que seria do azul se todos gostassem do amarelo? Durante décadas, o ditado popular parece não ter sido bem aceito por muitas mulheres, aprisionadas à ditadura do corpo perfeito, sem celulite e estrias, com poucos quilos e esculpido nas academias de ginástica. Mas a busca desenfreada por este padrão estético está perdendo o ritmo. Cada vez mais as pessoas estão se aceitando e abrindo espaço para um novo conceito de beleza que valoriza a diversidade, saúde e bem-estar.
A idéia é combater o culto à perfeição e mostrar que todos são bonitos, independente de estereótipos, aponta a psicóloga clínica e sexóloga Dalva Tamborianski. “Não é preciso ter o corpo ‘sarado’ para obter sucesso na vida. Nessa euforia pela beleza perfeita, algumas pessoas se esquecem de sua competência e projeto de vida, deixando de serem autênticas. Buscam estar belas e se esquecem de serem belas. E todo ser humano é belo.”
Pegando carona nesse novo cenário, algumas empresas, principalmente as da área de cosméticos, investem em estratégias publicitárias com enfoque na imagem feminina real. A Natura foi uma das primeiras a estampar, em1992, mulheres comuns e de todas as idades em seus anúncios.
A Nike resolveu adotar estratégia semelhante. Na contramão do padrão americano “barbie” – seios com silicone e quadril estreito – a marca de produtos esportivos desenvolveu uma campanha evidenciando partes do corpo feminino e apostando nas diferenças. A campanha utilizou expressões como “meu bumbum é grande e redondo como a letra C”, “coxas volumosas” ou “pernas que poderiam ser duas varas”, e chamou a atenção para o fato de que nenhum corpo é prefeito.
Baseando-se em uma pesquisa sobre a auto-estima feminina, a Dove transformou mulheres gordinhas, com barriguinha, celulite ou de seios pequenos em garotas-propaganda da campanha “Real Beleza”, que reforça o fato de que cada pessoa é bonita do seu jeito. Segundo a assessoria de imprensa da marca, a publicidade aumentou em 30% a venda dos produtos.
A Lux também realizou um estudo sobre o perfil da mulher atual para criar sua estratégia de marketing. Denominada “Somos Todas Divas”, a campanha Lux prioriza a evolução feminina para democratizar o luxo. A idéia, explica a assessoria de imprensa da marca, é deixar de lado padrões estéticos e representar a beleza feminina por meio de atitude e bom humor.
Mas além de trazer maiores lucros para as empresas, as campanhas publicitárias abriram espaço para importante reflexão sobre o conceito de beleza atual, que vai muito além do culto ao corpo, idéia solidificada nos anos 90. De acordo com Tamborianski, na busca pela aparência jovem e corpo escultural, milhares de pessoas se tornam escravas da vaidade. Prova disso são as inúmeras cirurgias plásticas realizadas no Brasil, que é líder no ranking mundial, perdendo apenas para os Estados Unidos.
Segundo dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), em média, são realizadas 400 mil cirurgias por ano, sendo 60% delas com finalidade estética.
Auto-estima
“Há indivíduos que vivem em função da apologia à beleza externa. No Rio de Janeiro, por exemplo, mulheres mais velhas gastam muito para serem vistas como novas e avançadas. É uma futilidade”, avalia Tamborianski. A cobrança estética pode aprisionar e trazer frustrações, ressalta. “Muitas pessoas acabam se envolvendo pela idéia do corpo perfeito e se esquecem da beleza interior. Não há compromisso com o existencial.”
De acordo com a psicóloga, o conceito de beleza está conectada à saúde, bem-estar e auto-estima. “Ser belo é o encontrar consigo mesmo. Se a pessoa está de bem com o universo e seus semelhantes, tudo responde positivamente para isso”, observa.
Para a fisioterapeuta Vanessa de Araújo Fioretti, 24 anos, ser belo é poder expressar sua própria identidade. Gordinha desde a infância, ela nunca quis recorrer a dietas mirabolantes ou cirurgias plásticas para se “enquadrar” nos padrões de beleza. “Desde os 7 anos minha mãe falava para eu não comer porque poderia engordar. Nunca liguei para isso. Na escola era gordinha, mas todo mundo sempre me respeitou. Acredito que quem gosta de mim gosta do jeito que sou”, diz. “Há pessoas de todos os tipos e gostos diferentes para tudo. É a diversidade”, afirma.
Assim como Fioretti, muitas mulheres põem em xeque o padrão estético e provam que é possível superar as pressões diárias de beleza. É o caso da cabeleireira Marisa Cristina Ribeiro Lopes, 39 anos. Dona de um salão de beleza especializado em cabelos afro, ela conta que grande parte de suas clientes prefere alisar as madeixas crespas e encaracoladas.
“Muitas acabam sendo escravas da beleza para se encaixar nos padrões”, opina Lopes. Mas diferente de suas freguesas, ela nunca quis alisar as madeixas crespas e armadas – característica típica da raça negra. “Meu cabelo é crespo e, se eu penteá-lo, fica parecido com o da cantora Luciana Melo. Às vezes o deixo solto ou faço tranças, mas não gosto de escova e ‘chapinha’”, diz.