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País recebe histórias de piratas de Brando

Por Sérgio Rizzo | Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

Um dos maiores atores em toda a história do cinema assiste a um filme cuja originalidade o impressiona e decide convidar o cineasta, que conhece há mais de dez anos, para que desenvolvam juntos um projeto. Com personalidades semelhantes, os dois vivem durante algum tempo em uma ilha no Taiti e escrevem o roteiro de um longa-metragem. Como é típico na indústria cinematográfica, o projeto é interrompido e, por fim, abandonado. O cineasta procura transformá-lo em romance, mas se suicida sem o concluir. Oito anos depois, morre o ator.

É a senha para que a viúva do primeiro tire da gaveta o trabalho inacabado e leve adiante o projeto de publicá-lo. Para a edição, convida um crítico e historiador. E o final é feliz: o livro sai. O resumo não se aplica à trama de “Fan-Tan”, mas às peripécias de bastidores que se estenderam por cerca de duas décadas até seu lançamento.

Personagens: o ator norte-americano Marlon Brando (1924-2004), o escritor e cineasta escocês Donald Cammell (1934-1996), co-realizador (com Nicolas Roeg) de “Performance” (1970), drama estrelado por Mick Jagger, e o crítico David Thomson, autor do livro “Suspeitos” (ed. Marco Zero), que propõe continuações para a vida de diversos personagens cinematográficos.

É inevitável cogitar que essa história, a do making of de “Fan-Tan”, renderia provavelmente material ainda mais interessante do que o longa de ação um dia planejado por Brando e Cammell. A rigor, ela constitui camada paralela do romance, alimentada na apresentação por China Kong, viúva do cineasta, e reforçada no posfácio por Thomson. Não é convencional, portanto, o convite à leitura dessa aventura sobre um pirata da década de 20. Pede-se mais um tanto de imaginação: não só a que visualizaria Brando e Cammell se divertindo em manhãs dispersas de trabalho no Taiti, às voltas com personagens cínicos em situações folhetinescas, mas também a que rodaria na cabeça o filme hipoteticamente nascido daqui.

Estava reservado a Brando o papel principal, o do escocês Anatole Doultry, ou Annie, o “grande urso branco”, 1,86 m e 100 kg. No início, o encontramos confinado em uma prisão de Hong Kong cujo principal divertimento são corridas de baratas. Embora gente da pesada passe um tempo ali, Annie (também conhecido como capitão Doultry) se vira bem. Ao sair, promete se regenerar, mas uma mulher poderosa e fatal, madame Lai, o atrai de volta à vida nos mares. Seria um filme repleto de menções a filmes, que sobrevivem no romance. E também de citações e referências à literatura de aventura e à mitologia criada em torno de piratas.

O tom da publicação é de humor negro, a julgar pelas histórias disparatadas em que Annie se envolve, que testemunha ou que nos conta, e pelas ironias que temperam o texto da obra. O romance “secreto” que um dos maiores atores do século 20 co-escreveu: esse talvez não seja um bom epitáfio para “Fan-Tan” e possivelmente é injusto com o trabalho de Cammell, mas está de bom tamanho para um roteiro inacabado que as circunstâncias ressuscitaram em forma de livro.

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