São Paulo - Uma suíte do hotel Grand Hyatt, na zona sul de São Paulo, acabou, ontem, preenchida por imagens de santos, da Virgem Maria, além de cartões com pedidos de bênçãos para parentes doentes. Também havia compotas de frutas brasileiras, CDs de música, frutas.
Os itens foram entregues por cerca de cem monges, lamas, seguidores do budismo e simpatizantes, que começaram a chegar desde o início da manhã ao saguão do hotel de padrão cinco estrelas para recepcionar o líder máximo da tradição tibetana, Tenzin Gyatso, o dalai lama, que iniciou ontem sua terceira visita ao País - as anteriores aconteceram em 1992 e 1999 - que dura até a manhã de domingo.
Com o traje típico nas cores bordô e amarela, Tenzin Gyatso chegou ontem às 10h no aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, proveniente de Nova York. Na companhia de seis assessores, veio a bordo de um avião da United Airlines, na classe executiva. Embarcou em um Passat blindado pilotado por um agente da Polícia Federal (PF), que se dirigiu ao hotel acompanhado por motocicletas e batedores da PM.
O primeiro compromisso do dalai lama começou pontualmente às 15h, com uma entrevista coletiva para a imprensa brasileira que aconteceu no auditório do BankBoston, a poucos passos do Grand Hyatt - o trajeto foi percorrido a pé pelo septuagenário.
Em 45 minutos, perguntou-se - e ele respondeu- sobre cultura tibetana, reencarnação e até profecias a respeito de supostas inundações de faixas litorâneas. Respondendo metade das perguntas em inglês e a outra metade em tibetano, o que se ouviu foi um elogio à ciência: “O budismo pode abrir mão de suas próprias tradições caso a ciência demonstre que essas tradições contrariam a lógica, o raciocínio e a experimentação”.
Em outra passagem, sobre as profecias, tascou: “É muito pouco provável que alguém tenha convicção firme sobre o que diz uma profecia”. Sobre a moda budista no Ocidente, desencorajou comemorações: “Sempre digo que é mais seguro e melhor manter sua própria tradição em vez de se aventurar e adotar uma nova tradição religiosa, com a qual não se tenha intimidade”. E criticou o pessoal “new age” que “mistura elementos de várias religiões e acaba esquecendo as origens singulares de cada uma”.
Na saída, cercado por uns poucos jornalistas, ainda escutou uma pergunta sobre o futebol brasileiro. Disse que não entendia do assunto. Eram 15h50 quando o dalai lama chegou à sua suíte. Começaram as visitas. Primeiro, uma delegação de cinco pessoas do Partido Verde (PV), José Luiz Penna, presidente nacional da agremiação à frente. Todos saíram com os katas, écharpes de seda branca bordadas em Dharamsala, Índia, onde está exilado o governo budista tibetano desde 1960. Foi o próprio dalai lama quem colocou os katas em volta dos pescoços dos visitantes.
Outros visitantes subiam e desciam até que chegou o ministro Gilberto Gil. Já com o kata, ele disse que é a terceira vez que se encontra com o dalai lama no Brasil. Que conversaram sobre para onde vai a China, o budismo, a humanidade. Segundo Gil, nem uma palavra foi trocada sobre corrupção ou Brasil. Às 18h, Tenzin Gyatso foi descansar.
Hoje, às 10h, ele estará no templo Zu Lai, em Cotia, falando sobre “Natureza e treinamento da mente no budismo tibetano”. Em tempo: a organização do evento explica que o dalai lama está hospedado no cinco estrelas Grand Hyatt, o mesmo que abrigou o astro pop Bono Vox, da banda irlandesa U2, sem pagar nada por isso.
O hotel ofereceu graciosamente a estadia a ele e a sua comitiva. “Outros dois hotéis fizeram a mesma gentileza”, explica Lia Diskin, co-fundadora do Instituto Palas Athena, que patrocina a visita do religioso.