De um lado, um jovem promotor de Ribeirão Preto, Daniel José de Angelis. Do outro, José Roberto Batocchio, ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Coube aos dois Josés contar como foi o depoimento de Antônio, o ex-ministro da Fazenda Antônio Palocci, indiciado à distância nesta quinta-feira por outro Antônio, o delegado Benedito Antônio Valencise.
O carro preto com vidros escuros de Palocci saiu em disparada pela entrada da corregedoria, situada num setor industrial de Brasília, enquanto Batocchio, do lado oposto, descia do carro para distrair os jornalistas. Pouco antes, De Angelis, menos experiente na lida com a mídia, suou para responder à bateria de perguntas de repórteres de TV, rádio e jornais.
A notícia sobre o indiciamento foi oferecida de chofre pelo promotor, mas suas respostas lacônicas sobre o depoimento não davam maiores pistas sobre o que aconteceu entre ele, Palocci, o advogado e os dois delegados da Polinter que acompanharam o depoimento. Ele apenas repetia que o importante foi que o ex-ministro negou várias vezes qualquer comando de fraudes no serviço de lixo em Ribeirão Preto.
Foi necessária nova investida dos repórteres para que De Angelis declarasse que, em sua opinião, é muito difícil que um prefeito não saiba sobre desvios da ordem de R$ 30 milhões. O promotor, cujos traços lembram os do cartunista Angeli, disse que suas investigações ainda demorarão alguns meses e que nunca conversara com Palocci, que se comportou durante o depoimento do modo habitual, sorridente e cordial.
“Ele pode até ter mentido, ele tem esse direito”, afirmou o promotor ao responder se considerava Palocci um mentiroso. Pouco depois, José Roberto Batocchio questionaria também a veracidade do que o promotor dizia: “O que um promotor fala é sempre, necessariamente, verdade absoluta?”
Ele se referia à declaração de De Angelis aos jornalistas sobre o indiciamento de Palocci como um fato consumado – segundo o promotor, Palocci não ficou surpreso com a notícia porque já sabia dessa condição, antes de começar a depor. Batocchio disse desconhecer o indiciamento do ex-ministro, mas que nessa “hipótese” isso deveria ser considerado “um absurdo jurídico”.
O ex-presidente da OAB invocou o dramaturgo Bertolt Brecht ao defender a inocência de seu cliente. “A verdade é filha dos fatos, não das versões”, citou, em forma de conselho aos jornalistas. Diante da conclusão de que ele consideraria o promotor um mentiroso, ele citou “filósofos”: “Eu não disse isso. Quem leu um pouco de filosofia sabe que existe a tese, a antítese e a síntese, e s síntese é a verdade”.
De Angelis ficou nervoso quando perguntado sobre eventual surpresa com a existência de supostas falcatruas num governo petista. Ressaltou que não passava pela cabeça há mais de um mês investigar Palocci, por sua condição de ministro, e disse que não cabe a um promotor fazer considerações partidárias.
Batocchio, em contrapartida, adorou pergunta sobre eventuais interesses políticos no indiciamento do ex-ministro: “Estamos num ano eleitoral. É claro que o fator político interfere, só os anjos não sabem disso”.