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A insolvência de quem produz


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Como dizia o velho ditado, “é quase como chover no molhado” cobrar do governo medidas que compensem os agricultores dos imensos prejuízos que lhes são impostos pela política monetária e pela quebra dos preços produzido pela supervalorização do real nos últimos 36 meses. O ministro Roberto Rodrigues, que dentro do governo peleja a favor da agropecuária, parece ter jogado a toalha esta semana diante do que ele próprio qualificou de “crise sem precedentes” motivada pelo acúmulo de quatro fatores que se somaram para arrasar o setor: câmbio, taxa de juros, seca e logística.

Embora convencido que se tratava de paliativos, assim mesmo ele tentou agilizar várias medidas como a redução de alíquotas de alguns impostos incidentes sobre produtos da agricultura e insumos para a produção ou a agilização de alguma espécie de seguro rural, mas não encontrou guarida. No final, resumiu seu desalento aceitando que “a baixa cotação do dólar é um problema de matemática e não tem solução à vista”. Nem mesmo a renegociação das dívidas, obtida com apoio de setores do Congresso ligados ao setor rural, será capaz de tirar os produtores do sufoco: a agricultura tem suas dívidas corrigidas monetariamente pelos índices de preço, mas suas receitas são determinadas pelo câmbio, de tal sorte que há o efeito perverso da erosão dos patrimônios que, mais uma vez, vão sendo destruídos pela dívida ascendente.

A agricultura brasileira conquistou, muito recentemente, a posição de uma das mais produtivas e eficientes do mundo. Em muitos setores ocupa a liderança, seja em volume de produção seja em produtividade, o que explica o enorme crescimento do saldo de suas exportações. Graças a esse aumento de eficiência do setor agropecuário, os brasileiros estão sendo alimentados com os melhores produtos a custo reduzido.

Não é sem razão que um salário mínimo permite ao pobre comprar hoje o dobro dos alimentos que comprava há três anos. Este é o lado bom do problema, mas tão certo como o pôr do sol a cada 24 horas isso não se sustenta se não cessar logo o processo de esmagamento dos agropecuaristas que perderam de 30% a 50% de suas rendas entre 2003 e 2005. A verdade é que, à exceção dos setores sucroalcooleiro, da cafeicultura e da citricultura, todos os demais estão ou sob ameaça ou já em situação de insolvência. É isso que explica o desencanto que está levando à revolta produtores em todo o Centro-Oeste. Essa gente foi, em grande parte, responsável pelo enorme esforço que produziu os saldos comerciais e aliviou o constrangimento externo da economia brasileira. Não pode, agora, ser abandonada pelo governo quando está sendo ameaçada de extinção pela política monetária que criou as condições da supervalorização cambial ao permitir a arbitragem da diferença entre juros internos e externos que faz a felicidade dos especuladores nacionais e internacionais.

O autor, Antonio Delfim Netto, é deputado federal pelo PP-SP e professor emérito da USP

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