Esqueçamos, por um momento, a ideologia e os fundamentos econômicos da reforma agrária e olhemos para a situação real dos que vivem e dos que querem viver da atividade agrícola. Sempre viveram bem, com riqueza e conforto, em todas as partes do mundo e em todas as épocas da história, os grandes proprietários. Os pequenos proprietários sempre viveram com dificuldade e os trabalhadores sem terra sempre viveram mal. Em nenhum lugar e em época alguma essa situação mudou, a ponto de servir de exemplo para outros países, apesar dos protestos e das lutas, muitas delas sangrentas.
No século passado, as indústrias e os atrativos da vida urbana esvaziaram os campos. Os que não tinham propriedades e os desiludidos com o trabalho agrícola foram procurar uma vida melhor nas cidades. Mas enquanto a vida no campo era simples e geradora de alimentos, a vida urbana, embora mais atrativa, é mais complexa e mais cara e depende do alimento que vem do campo. Além disso, outros fatores vêm complicando a situação. Os serviços urbanos e a construção de moradias não conseguem acompanhar o crescimento da população das cidades e o desenvolvimento da tecnologia, por sua vez, reduz as necessidades de mão-de-obra. As conseqüências estão aí, a proliferação das favelas, com condições de vida subumanas, o desemprego e o aumento da criminalidade.
O retorno ao campo, então, passou a ser visto como uma solução para esse gigantesco problema e a questão da divisão das terras, que é antiga, voltou ao nível de discussão com o movimento pela reforma agrária. Mas agora os tempos são outros, a cultura é outra e não existe a motivação para a volta ao campo como a que houve para a procura das cidades. Alguém pode argumentar: e esses milhares de sem-terra não estão motivados? Na verdade, não. Eles estão sendo mobilizados por lideranças ideológicas e como estão desempregados, encontraram nesse movimento um meio de subsistência. Embora levem vida difícil, pelo menos estão conseguindo como se abrigar, se vestir e se alimentar, com a ajuda do governo e de algumas ONGs.
Olhando, agora, os produtores agrícolas endividados levando seus tratores e colhetadeiras para a porta dos bancos e bloqueando ruas e estradas, num movimento nacional de protesto contra a falta de incentivo e de uma política agrícola de amparo aos produtores, ao mesmo tempo que vemos enormes acampamentos de lona, com famílias inteiras de sem-terra em situação precária, ficamos a pensar: se os que já possuem a propriedade agrícola e têm tradição no trato da terra não estão conseguindo sobreviver, como querer levar mais gente para o campo fornecendo apenas alguns alqueires de terra? E por que, também, os países que subsidiam a agricultura não abrem mão do incentivo? Não é porque a atividade agrícola, por si só, não é lucrativa?
A agricultura sempre foi uma atividade de risco porque está na dependência de fatores incontroláveis como seca, chuva excessiva em época imprópria, granizo, geada e fatores pouco controláveis como pragas e custo de adubos e defensivos, de fornecedores internacionais. Quando tudo corre bem e a safra é boa, o excesso de oferta derruba o preço. Quando há escassez o preço sobe mas a quantidade é pouca. Também não podem praticar preços justos porque a maioria dos consumidores são as populações de mais baixa renda. O que pode ajudar são: garantia de preço mínimo, financiamento a juros baixos e, em alguns casos, subsídio. A lógica deveria ser o fortalecimento dos que já são do campo para que eles progridam e dêem trabalho aos que não têm terra, em vez de somar a dificuldade dos que não têm com a dos que têm terra. Não é uma incoerência querer melhorar tirando de uma dificuldade para colocar em outra?
O autor, Pedro Grava Zanotelli, é consultor e ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru