O dia 3 de junho de 2006 deve ser lembrado em Bauru como o dia em que a música erudita alcança sua maturidade. Nessa noite foi apresentad,o no Automóvel Clube, um magnífico concerto patrocinado pela Universidade do Sagrado Coração, Secretaria Municipal de Cultura, Memorial Engenharia, MultService e pela primeira-dama da cultura em Bauru, a incansável Jú Machado.
A primeira parte foi dedicada a uma homenagem a Mozart, a orquestra foi agraciada com a presença do magnífico soprano Débora Letícia, que interpretou com grande talento as sublimes melodias do Exultate, Jubilate e Aleluia. Débora Letícia tem um timbre brilhante e domínio total de sua voz. Ela nos transportou para um ambiente de louvor ao Criador. Nessas peças Mozart exige uma dinâmica perfeita com trinados iniciados em pianíssimo e crescendos que nos lembram Rossini.
A orquestra, sob a batuta do maestro Marcos Virmond, esteve em perfeita sintonia com a grande cantora, cada naipe, dando um show de virtuosidade, resultado de um trabalho intenso de afinidade e harmonia. Na ária da ópera Die Zauberflote, a orquestra já nos primeiros acordes transmite uma sensação completamente oposta às árias celestiais das primeiras peças, a música nos transporta a um ambiente sinistro onde a cantora interpreta as ameaças da Rainha da Noite “Der Holle kocht in meinem Herzen” (a vingança infernal ferve em meu coração). Esta talvez seja a ária mais conhecida de Mozart e que também exige grande virtuosidade tanto da solista como da orquestra, especialmente do jovem flautista Luís Marcelo que faz mágicas com sua flauta nesta peça. A Flauta Mágica e depois com o picollo no Guarani de Carlos Gomes. A última peça cantada por Débora Letícia foi a famosa ária da Boneca dos Contos de Hoffman composta por Offenbach. Esta peça cheia de humor exige muito de todos os músicos, pois é uma peça do estilo romântico e de muitas pausas e entradas súbitas. O público delirou com esta apresentação e o maestro Virmond e a cantora Débora Letícia ofereceram um bis.
A segunda parte começou com o magnífico Concerto para Piano e Orquestra de Robert Schumann, tendo como solista a grande pianista Rosa Maria Tolon. Schumann compôs este grande concerto para sua esposa, a grande pianista de seu tempo, Clara Schumann, que foi muito admirada por Liszt e Brahms. A interpretação de Rosa, tenho certeza, iria agradar muito à própria Clara e seus admiradores como Liszt e Brahms.
Este é um concerto de grande sintonização entre o piano e a orquestra, é como uma cena de amor, um diálogo sublime entre o piano e a orquestra, um começa uma frase e o outro completa, as vozes se entrelaçam numa completa harmonia de sons e de pura inspiração. A orquestra também interpretou a primeira parte de uma sinfonia de Mozart, música do ballet Sylvia de Delibes e a overture da ópera Il Guarany de Carlos Gomes.
Para uma orquestra chegar ao nível da Orquestra de Câmara da USC é quase um milagre. Graças a Deus esta é uma universidade de visão mais universal, que pode ser comparada com universidades dos Estados Unidos e da Europa, onde existe uma grande preocupação com a cultura. A universidade faz a sua parte, mas uma orquestra sinfônica exige muito mais. Nos países do primeiro mundo existe um grande apoio das firmas, bancos, e da sociedade, mas, infelizmente, aqui no Brasil os músicos são obrigados a se sacrificarem por amor à música. Um músico erudito precisa dedicar muitas horas diárias à música. Quando o pianista bauruense Rogério Lourenço dos Santos foi tocar o Concerto número um de Tchaikovsky, em Boston, ele passou uma grande temporada estudando 10 horas por dia. Bauru é uma cidade privilegiada, pois quase sem nenhum apoio daqueles que podem oferecer, esta magnífica instituição insiste em oferecer o que há de melhor na música erudita. A música é um investimento para a melhora da sociedade, a música clássica encoraja e inspira o homem a alcançar ideais mais altos e conseqüentemente transforma os cidadãos em pessoas mais dignas.
Benedito S. Guedes de Azevedo - RG 1.571.673