Existem acontecimentos na história de um país que ganham uma dimensão atemporal. Transcedem tempo, lugar e passam a fazer parte do imaginário do povo. Quando o evento é trágico, a dor passa de geração para geração, eternizando nos genes o sentimento de quem presenciou ou viveu na época.
A derrota da Seleção Brasileira para o Uruguai na decisão da Copa de 1950 provocou uma das maiores comoções da história do Brasil. O episódio ficou conhecido como “Maracanazzo”, e ecoa através das décadas, causando frustração e estupor em todos os brasileiros, mesmo depois de 56 anos e cinco títulos mundiais. Uma herança tão forte que traumatiza e causa uma pergunta: como pode ter acontecido?
O Brasil sediava a Copa e era favorito. Passou bem pela primeira fase, com vitória sobre o México (4 a 0, gols de Ademir de Menezes (2), Jair da Rosa Pinto e Baltazar), empate diante da Suíça, no jogo mais polêmico, (2 a 2, gols de Alfredo e Baltazar) e nova vitória diante da Iugoslávia (2 a 0, gols de Ademir de Menezes e Zizinho).
Classificado como campeão de seu grupo, o Brasil disputou o quadrandular final com Suécia, Uruguai e Espanha, primeiros colocados em suas chaves. Duas goleadas, 7 a 1 nos suecos (gols de Ademir de Menezes (4), Chico (2) e Maneca) e 6 a 1 nos espanhóis (gols de Ademir de Menezes (2), Chico (2), Jair da Rosa Pinto e Zizinho) e o título parecia muito perto. Na partida final, o Brasil poderia até empatar. Saiu na frente, com um gol de Friaça, mas perdeu. Uma virada em pleno Maracanã, com 200 mil pessoas incrédulas observando em silêncio a Celeste Uruguaia comemorar o bicampeonato.
Nos Estados Unidos existe o costume de se perguntar onde a pessoa estava quando John Kennedy foi assassinado. No Brasil, pode-se perguntar onde se estava na hora do “Maracanazzo”. Quem respondeu a esta pergunta para o Jornal da Cidade foi o jornalista e historiador Luciano Dias Pires, que revelou não apenas onde se encontrava, mas fez um panorama do Mundial de 1950, com a empolgação que persistiu durante a competição, um jogo tumultuado realizado no Pacaembu e a frustração final. O bauruense guarda a coleção da Gazeta Esportiva, com a cobertura completa do Mundial.
Pires conta ainda que a data fatídica lhe reservou mais uma tristeza. No mesmo dia, BAC e Noroeste jogaram o clássico bauruense e Pires, torcedor noroestino, teve que amargar a derrota do Alvirrubro para o rival. Era mesmo o dias das celestes. A seguir os principais trechos do relato de Luciano Dias Pires.
O escrete
“Era uma expectativa muito grande durante aquela Copa, porque seria realizada no Brasil, no Maracanã. Pelo fato do Brasil ter disputado três Copas do Mundo naquela época, ele foi escolhido para sediar a Copa do Mundo de 50. A euforia, como acontece hoje, em torno da Copa, dos jogadores, aconteceu também na época. Dos grandes jogadores que o Brasil tinha e que a Seleção permitiu a escalação, a formação era Barbosa; Augusto e Juvenal; José Carlos Bauer, Danilo Alvim e Bigode; Friaça, o grande Zizinho, Ademir de Menezes - grande centroavante -, Jair da Rosa Pinto e o Chico. Este trio atacante era um trio atacante que poderia se comparar hoje aos melhores atacantes da nossa Seleção atual.”
Vaias e agressão
“O Brasil entrou naquela Copa como grande favorito, não tinha adversário para ele. Veio o primeiro jogo e o Brasil ganhou do México de 4 a 0. Aí o segundo jogo foi marcado para o Pacaembu - todos os jogos seriam realizados no Maracanã -, pois São Paulo clamava, exigia, pelo menos um jogo no Pacaembu, não existia o Morumbi ainda. Então marcaram o jogo contra a Suíça no Pacaembu. O técnico brasileiro, Flávio Costa, estava sendo mal visto pela torcida paulista porque ele não convocou o ponta-direita Cláudio, que era o melhor ponta-direita do Brasil naquela época. Não sei qual era o problema, ele não quis e convocou o Alfredo, um lateral do Vasco, que jogava também como ponta-direita. Então, quando a Seleção entrou no Pacaembu, já entrou sob vaias. A hora que serviço de som anunciou a escalação do Brasil e falou o nome deste Alfredo já foi uma vaia estrepitosa contra aquele jogador e pela ausência do Cláudio. E, por azar do Flávio Costa, o Brasil jogou mal nesta partida, porque ele não colocou o Zizinho, não colocou o Jair Rosa Pinto, o Chico, o Danilo Alvim, não colocou o Bigode - o Bigode até que não fazia falta porque foi o culpado pela derrota, depois, contra o Uruguai. O Brasil empatou 2 a 2, a Seleção saiu do Pacaembu sob vaia e o técnico Flávio Costa foi agredido no vestiário por dois torcedores. O problema foi levado até para a polícia naquele dia.”
Caminhada triunfante
“Depois, no Maracanã, o Brasil ganhou da Ioguslávia por 2 a 0, então veio a sequência: ganhou da Suécia por 7 a 1 e da Espanha, 6 a 1. Aquilo incendiou o Brasil, aquelas três vitórias, três vitórias seguidas. O povo estava uma loucura, pegando fogo em torno da Copa do Mundo e esperando a final contra o Uruguai. E o Uruguai deu uma sorte tremenda naquela Copa, porque quando a Fifa formou os quatro grupos de seleções, duas seleções na última hora desistiram de disputar a Copa. Estas duas seleções eram do grupo do Uruguai. A Fifa, então, não refez os grupos, deixou dois grupos com quatro, um grupo com três, que outra seleção também não compareceu, e o grupo do Uruguai com dois times apenas: o Uruguai e a Bolívia. O Uruguai ganhou (8 a 0) da Bolívia e já foi para a disputa final dos quatro campeões de cada grupo. Não era como é hoje, uma partida final. Aqueles quatro campeões disputaram entre si um quadrangular. O Uruguai ganhou um jogo
(3 a 2 na Suécia), empatou outro (2 a 2 com a Espanha) e, quando foi enfrentar o Brasil - o Brasil ganhou dois jogos -, estava com um ponto a menos, naquela época era ponto perdido. O Brasil tinha zero ponto perdido e o Uruguai tinha um ponto perdido. O Brasil iria jogar pelo empate.”
A tragédia
“O Maracanã com mais de 200 mil pessoas, aquela festa, uma loucura. O Friaça abre a contagem, 1 a 0, aquilo explodiu. Depois o negócio deu para trás. O Obdulio Varela, centro-médio e grande nome do futebol uruguaio, gritando em campo, aquela coisa toda, puxando os colegas de time, de seleção. No fim, o Uruguai virou e venceu por 2 a 1. Aquilo foi o maior silêncio no Maracanã. Uma choradeira no Brasil todo. Aquela data que marcou, 16 de julho de 1950.”
Bairrismo
“Foi uma tragédia. Ninguém acreditava, ninguém podia achar que o Uruguai... Do jeito que o Uruguai estava disputando o campeonato, beneficiado no sorteio do grupo. (No quadrangular) Teve um jogo que empatou aos 30 minutos do segundo tempo, com um chute do meio-campo do grande Obidúlio Varela, depois ganhou o segundo jogo com dificuldade, 3 a 2. Quer dizer, foi capengando, capengando até enfrentar o Brasil. Chega contra o Brasil, ele aprontou aquela. Mas o técnico Flávio Costa foi duramente criticado, porque ele colocou oito jogadores do Vasco da Gama, do qual ele era técnico. Convocou Barbosa, Augusto, Eli, Danilo (Alvim), Ademir de Menezes, Chico e o Alfredo. Os paulistas já ficaram uma arara na época, principalmente por causa do Cláudio, que um jogador fenomenal, uma espécie de Garrincha, só que mais lúcico, mais inteligente. Bairrismo dele, não sei o que foi. E foi do empate com a Suíça que nasceu, futuramente, aquela ojerija dos paulistas em relação à Seleção Brasileira. Sempre que a Seleção Brasileira jogava no Pacaembu era vaia. Se o time começava a jogar bem, marcar gols, a torcida aplaudia. Mas se começava a jogar mal, errar passes, a torcida já vaiava.”
O vilão
“Dizem que o Bigode se acovardou. Foi intimidado pelo Obdulio Varela, que era um jogador vibrante, que gritava. ‘Estamos jogando, aqui é camisa do Uruguai’, pegava a camisa, ‘Tem que correr, isso aqui é a nossa vida’. E dizem que o Bigode se intimidou com essa gritaria dele e não marcou direito o Ghiggia, que marcou um gol e deu o passe para o outro. Mas o (goleiro) Barbosa não podia fazer nada. A gente ainda vê os gols que surgiram. Aquele gol que entra entre a trave e ele não tinha jeito. Mas o Barbosa ficou marcado, o Bigode também. O Barbosa continuou jogando normalmente no Vasco, como titular absoluto. O Bigode eu não lembro. Acho que ele foi jogar no Fluminense até encerrar a carreira. Ele não era muito novo. Os outros jogadores continuaram todos a jogar normalmente. Naquele tempo ainda não tinha este mercado europeu. Dessa Seleção de 50, eu separo cinco jogadores que disputariam posição na Seleção de hoje. O lateral Bauer, que ganhou o apelido nesta Copa de Monstro do Maracanã. O que este homem jogou foi uma barbaridade. Era lateral do São Paulo, nasceu no time de base do São Paulo. O Danilo (Alvim), um grande centro-médio, técnico, jogador excepcional. O Zizinho - Mestre Ziza -, o Ademir de Menezes e o Jair da Rosa Pinto, que também foi um mestre.”
Celestes vencem
“Naquele tempo, os campeonatos principais estaduais tinham sido suspensos por causa da Copa, mas o campeonato da Segunda Divisão de profissionais continuava. O Noroeste, naquela época, disputava o campeonato da Segunda Divisão e, neste dia do jogo contra o Uruguai, no campo do Bauru Atlético Clube, foi disputado o dérbi aqui da cidade, o clássico bauruense de futebol, que era BAC x Noroeste. A diretoria do BAC colocou o serviço de som, as cornetas, para retransmitir o jogo (do Brasil) na hora, para quem fosse ao campo ver BAC x Noroeste pudesse ouvir. A gente sentado na arquibancada, na hora que saiu aquele gol do Brasil, explodiram as duas torcidas festejando. Depois veio a derrota e, para uma dupla insatisfação minha como noroestino, o Noroeste também acabou perdendo aquele jogo por 1 a 0. Eu saí lá do estádio com a cabeça cheia, o Noroeste perdeu por 1 a 0 e o Brasil por 2 a 1.”
A coleção
“Naquela época, havia dois jornais esportivos em São Paulo, era a Gazeta Esportiva e O Esporte. A Gazeta era um jornal atuante, em cores, bonito. Tinha rodada, por exemplo, no domingo à tarde e à noite o jornal já estava circulando. E eu fui comprando o jornal com os resultados dos jogos. Disputava o jogo e eu, segunda-feira, comprava. Chegava de trem aqui em Bauru, à 1h da tarde. A gente ia na agência e enchia de gente para comprar o exemplar. E eu fui comprando e fui guardando os jornais. Quando chegou no último jogo com o Uruguai, perdeu. Mas, assim mesmo, eu comprei, juntei todos e mandei encadernar. Há 56 anos, eu tenho guardado esta coleção encadernada, que é um verdadeiro documento da Copa que o Brasil, lamentavelmente, perdeu.”