De classe média, a família de Gilson Misquiatti é exceção: ainda consegue manter o orçamento no “azul”. O segredo dele está na severidade com que as contas são tratadas. Com tudo na ponta do lápis, o pequeno empresário consegue manter sempre o mesmo padrão de alimentação, um dos dois filhos em escola particular, as saídas nos finais de semana e até as férias anuais.
“Mantendo o mesmo rigor, as expectativas são positivas. Entre os meus amigos, poucos levam desse jeito. Não entro no cheque especial porque é uma bola de neve. Depois é difícil para sair”, diz.
Não é a toa que muitas famílias têm recorrido ao crédito consignado para quitar o débito junto ao cheque especial. A redução de juros é drástica. Cai, em média, de 8% para 2,5% ao mês, informa o economista Carlos Sette.
Segundo os cálculos dele, se a mudança não for feita, uma família com renda de R$ 3.000,00 pagará R$ 120,00 só de juros mensais, caso o limite de crédito estabelecido pelo banco seja de R$ 1.500,00. O valor representa 4% do orçamento. “Normalmente, a família está no vermelho porque tenta bancar um bem-estar cuja renda não lhe permite. Usa o crédito e fica eternamente no vermelho. Quanto maior for o limite, mais vai usá-lo”, afirma.
Pessimismo
O economista é pouco otimista com relação ao futuro da maioria dessas famílias. Na opinião dele, é mais fácil que empobreçam do que saiam do buraco. “Para ter mudança de quadro, só com alteração no modelo econômico. O País teria de ter um modelo econômico menos ortodoxo, menos assistencialista, que desse um choque de gestão nesse País”, comenta.
De acordo com ele, a política econômica deveria contemplar a produção, a eficiência, a participação nos lucros e aumento da renda por conta do trabalho. “Mas o que a gente vê é concentração de renda e utilização por parte do governo de uma política assistencialista nas classes D e E por conta de programas como o Bolsa-Família. Ele não gera emprego”, avalia.
Um outro fator desalentador comentado por Sette é o inexpressivo crescimento econômico do País. Nos últimos três anos, o Brasil cresceu um terço em relação a outros emergentes. “É isso que vai gerar emprego e renda. Em 2005, o Brasil cresceu 2,3%. A Argentina e a Rússia, 8%. A Índia e a China, 9%. A Venezuela, 6%. E o mundo, 5%”, informa.
Se o percentual for mantido, haverá um abismo entre a economia brasileira e o resto do mundo, acrescenta o economista.