Brasília - Pela quinta vez desde que assumiu o governo, o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, entregou o cargo ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e, dessa vez, o presidente aceitou. Apesar de deixar o cargo a apenas seis meses do fim do governo, Rodrigues disse que sua decisão não foi motivada por razões políticas e disse apenas que sua “missão está cumprida”.
Rodrigues também negou que o seu pedido de demissão esteja relacionado a problemas de saúde em sua família, conforme chegou a informar mais cedo o líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), e explicou que a doença de sua mulher, mencionada na imprensa ontem, já existia quando ele assumiu o ministério, no início do governo Lula, em 2003.
A reportagem apurou que o principal motivo do pedido de demissão foi a pressão da bancada ruralista, que criticava as dificuldades do ministro em ver seus pleitos atendidos totalmente dentro do governo. Ou seja, o ministro sentiu que perdeu o apoio de sua principal base. Rodrigues, que teve atritos com a equipe econômica tanto na gestão de Antônio Palocci quanto na de Guido Mantega, comentou com assessores que já não se sentia confortável nas reuniões com ruralistas em suas visitas pelo País diante das reclamações de que não estaria obtendo o necessário ao setor.
A data de saída de Rodrigues ainda não está decidida. Amanhã, ele volta a falar com Lula para defini-la. O ministro já havia dito que não continuaria num segundo mandato de Lula. “Não existe nenhum componente político, muito menos ligação com o processo eleitoral. Estou deixando o governo porque minha colaboração se encontra terminada”, afirmou. O pedido de demissão foi formalizado em jantar com Lula anteontem.
“O presidente teve uma posição de amizade. Não pediu para eu ficar. Entendeu meus argumentos”. Bem-humorado, ele fez questão de demonstrar desprendimento quando questionado se seu cargo havia sido pedido para ser entregue ao PMDB. “Para mim ninguém pediu nada. Acho que se tivessem pedido, o presidente teria falado, mas não sou político, não tenho amor ao cargo.”
Rodrigues lamentou o fato de a notícia ter vazado pela imprensa e acabou antecipando o anúncio oficial de sua decisão. Segundo ele, é possível que o vazamento abrevie ainda mais sua permanência no cargo. Rodrigues afirmou que ainda não sabe o que vai fazer. Ele faz parte da minoria de nove ministros que continuam no cargo desde o começo do governo, travando a clássica disputa entre as áreas produtiva e macroeconômica, principalmente por ter o orçamento cortado durante os anos em que o agronegócio viveu sua pior crise.
“Vivemos uma duríssima crise, a pior dos últimos 40 anos, com aumento dos custos de produção e queda de preços”, disse. Ele evitou fazer críticas à área econômica e afirmou que o pacote agrícola de R$ 75 bilhões, anunciado em maio, foi resultado de negociação ampla com a área econômica. Mas admitiu que ele é insuficiente.
“O pacote não resolve todos os problemas, mas foi o possível depois de dois anos duríssimos de muito desgaste, muita crise.” E caracterizou sua atuação como “um ministério de gestão de crise”. “Temos problemas que têm a ver com o câmbio, juros e logística, que fogem do alcance da Agricultura. Gostaria que os juros fossem mais baixos e o dólar, um pouquinho maior”, afirmou. “O que falta são questões estruturantes, como a garantia de renda do produtor, mas transcendem a agricultura, são questões macroeconômicas.”
Entre os deputados da bancada ruralista, houve críticas e elogios a Rodrigues. “Sai tarde. Ele não conseguiu reverter o corte no orçamento, resolver a dívida do setor. Só perdemos”, disse o deputado federal Ronaldo Caiado (PFL-GO). Já o deputado Nelson Marquezeli (PTB-SP) disse que Rodrigues foi um dos melhores ministros e que representou bem o setor.
Sucessão
O sucessor natural de Rodrigues para comandar o Ministério da Agricultura nos últimos seis meses de governo seria o atual secretário-executivo do Ministério, Luiz Carlos Guedes. Entretanto, existem rumores em Brasília de que o cargo poderia ser negociado com o PMDB. Segundo Rodrigues, a mudança no ministério não deverá alterar a política do governo para o setor rural, seja o novo ministro um técnico ou um político.