Política

‘O voto é muito importante para ser desperdiçado’, diz Marcelo Borges

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 5 min

Embora entenda que o voto nulo ou branco seja uma forma do eleitor expressar seu descontentamento com a classe política, o vereador Marcelo Borges (PSDB) acha que o protesto poderia ser feito de uma outra forma.

Segundo ele, foram tantas as lutas para que o brasileiro reconquistasse seu direito ao voto que ninguém deveria deixar de exercê-lo. “O voto é algo muito importante para ser desperdiçado”, afirma. Para Borges, a omissão na hora de votar não traz resultados práticos, uma vez que os candidatos continuam sendo eleitos, sejam eles bons ou ruins.

Ao contrário do filósofo Fausi dos Santos e do consultor político Gaudêncio Torquato, o parlamentar é a favor do voto facultativo. Segundo ele, só deveriam votar aqueles que estão interessados no processo eleitoral. Entretanto, o vereador também entende que antes deve haver um amadurecimento do eleitor.

Para o secretário estadual do PV, Cláudio Turtelli, quando uma sociedade é maltratada por aqueles que estão no poder é natural o desgosto e o descrédito no processo político. “Diante disso, o eleitor perde a noção de que o voto dele é importante para alterar as políticas que conduzem a direção do País.”

Na avaliação dele, a educação é o caminho para mudar esse quadro. “Quanto mais educada, mais a sociedade participa das decisões. Quanto mais reprimida, mais ela se afasta.”

Turtelli acredita que falta ao brasileiro um pouco mais de amor ao próximo. “As pessoas precisam viver para si e pelos outros também. Quando isso acontece, começa-se a pensar de uma maneira mais ampla”, sustenta.

Voto consciente ou nulo

A discussão não é recente, mas sempre desperta reações acaloradas. De um lado, um grupo que defende o voto nulo como uma forma legítima e clara de demonstrar a insatisfação com as opções que se apresentam nas urnas. De outro lado, o grupo daqueles que pregam o voto consciente. Para esses, nem tudo está perdido.

Um dos adeptos dessa linha de pensamento é o médico veterinário Omar Fayad. “Eu defendo o voto consciente porque acredito que sempre é possível encontrar um político honesto”, declara. “Se deixarmos de votar, vamos dar margem para que os corruptos se elejam porque esses compram os votos.”

Na opinião do médico, é melhor errar pensando que está fazendo o certo do que se omitir imaginado que com isso vai resolver o problema da corrupção. O assistente administrativo Adilson Motta é outro que enxerga no voto consciente o meio mais apropriado para mudar. “Nem todos (os políticos) são corruptos”, acredita. Segundo ele, com o tempo é possível fazer uma depuração da classe política. “Aos poucos e com muita cobrança, vamos nos desfazendo daqueles que não prestam”, sugere.

De acordo com ele, quem vota nulo não tem direito nem mesmo de reclamar dos políticos que foram eleitos, porque se omitiram no momento da escolha. Mas os casos recentes e constantes de corrupção estão desestimulando até mesmo quem nunca pensou em anular o voto. É o caso do estudante de jornalismo Ronaldo Diegoli. Diante de todas as falcatruas que tem acompanhado pela imprensa, ele já cogita mudar de atitude. “Nunca anulei meu voto, mas estou pensando seriamente em fazer isso”, diz.

Segundo ele, falta fidelidade partidária, faltam idéias, faltam soluções para os problemas mais elementares do povo brasileiro como saúde, educação, moradia e alimentação. “Ao invés disso, eles (políticos) se preocupam mais em denegrir a imagem de seus adversários.”

O aposentado Devanil Botelho, por sua vez, já perdeu as esperanças. “Por melhor que seja um candidato, quando ele vence, ele entra no esquema dos demais”, afirma. Segundo ele, a corrupção está tão disseminada que chegou-se a um ponto que ficou impossível “separar o joio do trigo”.

“De repente, a gente aposta todas as fichas em determinados candidatos e lá vem a decepção. Outros que são flagrados em irregularidades conseguem voltar. Assim não dá. Alguma coisa precisa ser feita”, reclama Botelho.

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Voto facultativo

O voto facultativo está longe de representar um avanço no sistema eleitoral brasileiro. Com ele, praticamente cessariam os votos nulos e brancos, mas o País ainda não está preparado para isso. Antes, são necessárias outras mudanças, sejam elas estruturais ou educacionais.

Essa é a avaliação tanto do filósofo Fausi dos Santos quanto do consultor político Gaudêncio Torquato. Ambos acreditam que se esse sistema for implantado no Brasil a curto prazo, trará mais prejuízos do que benefícios.

“Para que (o voto facultativo) dê certo por aqui, antes é preciso formar o cidadão. Precisamos de um indivíduo autônomo, consciente”, diz o filósofo. No entanto, segundo ele, o que se vê é uma “grande massa de indivíduos alienados e facilmente manipulada pela propaganda eleitoral”.

De acordo com Fausi, se o voto facultativo fosse implantado hoje haveria uma grande abstenção, de eleitores, sem que isso sinalizasse uma atitude consciente. Segundo ele, a formação do indivíduo passa pela educação formal (na escola) e informal (na família).

Além da escola não estar em seus melhores dias, a família precisa ser resgatada. Segundo Fausi, esse resgate tem de ocorrer no aspecto social e econômico. “É difícil falar de um indivíduo com dignidade se ele não tem o mínimo para sua sobrevivência”, diz ele. “Formar pessoa não é como formar um objeto, que você põe na linha de montagem e está pronto. O efeito demora a aparecer.”

Torquato também acredita que o momento ainda não é o mais apropriado para acabar com a obrigatoriedade do voto. Segundo ele, a mudança seria para pior.“Tenho a impressão que o voto precisa ser obrigatório por mais um tempo até que se torne um costume. Na bagunça (política) que está hoje, se houver voto livre, ninguém vai votar”, aposta.

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