Ser

A ameaça do ciúme

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 5 min

“Como ciumento sofro quatro vezes: porque sou ciumento, porque me reprovo de sê-lo, porque temo que meu ciúme machuque o outro, porque me deixo dominar por uma banalidade: sofro por ser excluído, por ser agressivo, por ser louco e por ser comum.” O trecho da obra “Fragmentos de um discurso amoroso” (1977), de autoria do sociólogo e filósofo francês Roland Barthes, ajuda a descrever o ciúme, que, a exemplo da literatura, faz parte da afetividade humana.

Poucos conseguem escapar deste sentimento. Ciúme da namorada, da esposa, dos pais, do filho, do irmão, do amigo, do cachorro, do carro, das roupas, entre outras inúmeras situações envolvendo o medo da perda, na maioria das vezes causa angústia e sofrimento.

De maneira sutil ou avassaladora, a verdade é que todas as pessoas podem sentir ciúme por algo ou alguém nas diferentes fases da vida e nos diversos tipos de relacionamentos, aponta a psicóloga e terapeuta de casais Júlia Hernandez.

Segundo ela, o ciúme está ligado à entrada de um terceiro elemento na relação afetiva e pode ser encarado como ameaça ao vínculo de exclusividade. Este sentimento costuma surgir na infância, detalha a especialista, quando é necessário dividir a primeira figura de amor e apego – geralmente a mãe – e aceitar a participação de uma terceira pessoa, que pode ser o pai, irmãos, primos, escola ou sociedade.

“A tarefa evolutiva da criança, por exemplo, significa saber lidar com a autonomia da pessoa amada que, independente dela, pode amar e ser amada por outros”, diz Júlia. Para a psicóloga, o curso do desenvolvimento é uma caminhada de superação deste egocentrismo infantil.

“Metaforicamente é como estar no centro de uma roda; é preciso avançar em direção à periferia dela e assim fazer parte de uma coletividade em senso de igualdade. É deixar de ser o centro sem perder a possibilidade de ser amado, caminhando para a diversificação e ampliação dos vínculos”, explica.

A advogada Mariana (nome fictício a pedido da entrevistada) tem 36 anos e convive com o problema desde a infância. O ciúme começou na própria família, lembra ela, e, apesar de estar mais controlado, o sentimento persiste até hoje.

“Quando meu irmão nasceu, eu já tinha 2 anos, mas minha mãe precisou voltar a me amamentar porque fiquei com ciúme do bebê e comecei a emagrecer”, diz. “Irmã do meio”, ela conta que sempre sentiu ciúme dos pais e talvez por esse motivo ainda não tenha se casado. “Pensava que, com o casamento dos meus irmãos, meus pais poderiam me dar mais atenção”, diz.

Além da família, Mariana conta que o ciúme atinge outras áreas do seu cotidiano. “Sinto ciúmes do meu chefe quando, ao invés de me elogiar, parabeniza outro colega. Não gosto de dividir minhas coisas, minhas roupas e não empresto meu carro”, diz. E quando se trata de relacionamentos amorosos, o sentimento ganha maiores dimensões na vida da advogada.

A psicóloga Júlia explica que o ciúme pode se tornar mais explícito nos namoros e casamentos, uma vez que nestas relações são estabelecidas promessas de exclusividade e reciprocidade. Foi justamente o que aconteceu com Mariana. Ela conta que seus últimos dois namoros terminaram por conta de seu ciúme excessivo.

“Isto sufoca e a pessoa com quem estou convivendo não agüenta”, analisa. Na época, a advogada cometeu loucuras e peripécias para monitorar o ex. Chegou até a colocar peruca para segui-lo de carro. “Ficava policiando-o, ligava e desligava, queria ver as chamadas efetuadas e recebidas do celular, sentia ciúme das pessoas que o abraçavam em uma festa”, conta.

“Sintomas” semelhantes aos de Mariana já foram experimentados pela dona de casa Marta, 35 anos. Casada há 15 anos, ela conta que aprendeu a controlar o ciúme, apesar de ainda senti-lo. No início do relacionamento amoroso, porém, sofria só de pensar que o marido estava traindo-a ou enganando-a.

Emoções como raiva e insegurança dominavam Marta em muitas situações. Entre elas, quando o marido precisava trabalhar à noite. Nessa época, ela costumava passar em frente à empresa para monitorá-lo, conta. O ciúme também surgia em situações banais do cotidiano de Marta, quando o casal fazia compras no supermercado, por exemplo.

Estes comportamentos quase colocaram em risco o relacionamento de Marta e comprometeu a auto-estima da dona de casa, que entrou em depressão na época. “Me sentia diminuída. Tive crises de choro, cheguei a tomar comprimidos e a beber álcool. Aí procurei ajuda médica”, diz.

A situação só melhorou depois do nascimento do filho do casal, hoje com 8 anos de idade. Marta conta que a partir daí percebeu que não poderia deixar o ciúme continuar atrapalhando sua vida. “Comecei a me cuidar e a me valorizar. Ainda sinto ciúmes, mas é de uma forma mais tranqüila.”

A maternidade também ajudou a microempresária Emanuelle Lisboa Franco, 26 anos, a superar o ciúme excessivo que sentia de André Gonçalves, com quem está casada há quatro anos. Ela conta que não deixou de ser ciumenta, mas não como antigamente. “Fico enciumada em relação aos horários do André. Ele faz jiu-jitsu à noite e às vezes atrasa. Aí eu me estresso”, conta.

Ela cita outra situação que a deixa ameaçada: “Minha mãe tem uma padaria e em algumas ocasiões sinto ciúme das clientes”, assume ela, ressaltando que também tem ciúmes dos irmãos, da mãe e da sogra. “É o meu jeito, gosto da atenção só para mim”, confessa.

Com a chegada de Andrey Lisboa Gonçalves, 1 ano, a vida de Emanuelle passou por transformações. “Quando estava grávida me sentia horrível e insegura. Pensava até em como iria fazer para monitorar meu marido enquanto estivesse no hospital”, diz.

Com a maternidade e o passar dos anos, tudo mudou na vida de Emanuelle. “Agora minha atenção não é focada no meu marido, mas no meu filho. E o meu relacionamento com meu marido melhorou.”

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