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Só duas pessoas saíram do Bolsa-Família

Lígia Ligabue
| Tempo de leitura: 3 min

“Hoje eu estou bem melhor que antes. Nunca, na minha vida, eu podia imaginar que conseguiria o que eu tenho. Mas ainda não posso abrir mão do Bolsa-Família”, assume Gislaine Cássia Ferreira da Silva, 30 anos, manicure. Mesmo que muitas pessoas em Bauru tenham melhorado de condição financeira desde que passaram a receber dinheiro do programa de transferência de renda do Governo Federal, apenas duas famílias da cidade perderam o benefício por ter ascendido socialmente.

Criado em 2003, o Bolsa-Família unifica os programas de transferência de renda e tem como objetivo aliviar de imediato a pobreza, de acordo com o Ministério do Desenvolvimento Social (MDS). Aliado à transferência do dinheiro, o projeto desenvolve ações complementares, como qualificação profissional, alfabetização, entre outros. Segundo Egli Muniz, titular da Secretaria do Bem-Estar Social (Sebes), esses programas possibilitarão que as famílias se tornem independentes da transferência de renda.

Porém, em todo País, apenas 2.099 famílias abriram mão do programa e em Bauru, somente duas. Além disso, os casos da cidade não foram espontâneos, mas sim por não se adequarem mais às exigências. Uma delas é a ter renda per capita menor que R$ 120,00. Em Bauru, 8.933 famílias recebem algum programa de transferência de renda. “Começamos a inserir os programas sócio-educativos no ano passado. É um processo a longo prazo”, explica Muniz.

A manicure morava na rua com a sua irmã mais velha. Viciada em drogas, ela conta que cometeu pequenos furtos para conseguir comprar os entorpecentes. Conseguiu sair da rua e hoje tem a sua casa no Jardim Nicéia. Na residência de três cômodos, moram ela, o marido e as quatro filhas. Nos finais de semana, os dois filhos de seu marido também dormem por lá. Todas as camas ficam no único quarto, repleto de móveis.

No quintal, muitos filhotes de cachorro e uma tartaruguinha e um jabuti. Apesar da situação precária, ela diz estar muito feliz. “Nunca esperei ter uma casa, estudar. De onde eu vim, para onde eu cheguei, eu estou no céu”, conta. Muito dessa melhora, afirma, se deve à ajuda do Bolsa-Escola, que começou a receber há três anos. O Governo Federal ainda está migrando os beneficiários desse programa para o Bolsa-Família. Uma de suas filhas possui uma doença renal crônica e sem o dinheiro, Gislaine conta que não conseguiria manter todas as crianças estudando, já que os gastos com medicamentos e consultas são altos.

Atualmente, ela está apenas cuidando dos filhos e freqüentando as aulas do ensino supletivo, mas faz questão de ressaltar que sempre trabalhou. “Grávida da minha menina, eu procurava terreno para carpir. Sempre fazia algum bico”, conta. A casa onde mora a família é muito simples, mas bem equipada. Televisão, aparelho de som e DVD, tudo comprado em muitas prestações. “O DVD nós compramos em sociedade com o meu cunhado. Cada mês fica na casa de um”, explica.

Gislaine depende do Bolsa-Família para comprar material escolar e roupas para os filhos. E aproveita para tentar economizar e expandir mais um cômodo na casa. “Eu espero não precisar mais dele (Bolsa-Família) um dia”, diz.

Novatos

Enquanto poucos deixam o programa, muitos tentam entrar. Cícera Lima Pompeu, 48 anos, começou a receber o benefício no mês passado. Desempregada, ela cuida sozinha do neto de sete anos. “A mãe mora na roça, cuida de uma outra filha mais velha e não tem como mandar dinheiro. O pai, não paga pensão. O único dinheiro que eu ganho é vendendo cosméticos”, conta.

Com a renda, comprou roupas de inverno para o menino ir à escola. Como acabou de conseguir o benefício, não sabe se algum dia conseguirá deixá-lo. “Não tenho nem previsão. Ele vai crescendo e os gastos só aumentam”, prevê. Jivanir Marcondes, 44 anos, vive com três filhas e uma neta em uma casa de um cômodo no Jardim Nicéia. Ela também começou a receber o programa em junho.

Com o benefício, espera conseguir economizar para aumentar a residência. “Meu sonho é construir uma cozinha e um quarto”, revela. Toda a renda da casa vem da única filha que possui emprego fixo. “Como é que eu vou abrir mão do dinheiro nessa situação?”, pergunta.

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