Washington - Dez dias depois de iniciado o conflito no Sul do Líbano, os EUA resolveram finalmente agir na região, ainda que de maneira tímida. Em entrevista na tarde de ontem em Washington, a secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, anunciou que viajará ao Oriente Médio amanhã, onde se encontrará com o premiê de Israel, Ehud Olmert, e o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas.
A viagem é sinal de uma mudança parcial de atitude do governo de George W. Bush, até agora marcada pela inação. Parcial, pois a secretária de Estado ressaltou que a viagem não resultará num pedido de cessar-fogo a Israel, que bombardeia o Líbano desde o último dia 12 em retaliação ao seqüestro de dois de seus soldados pelo grupo extremista Hizbollah.
O conflito já deixou quase 400 mortos, 362 deles do lado libanês. “Um cessar-fogo seria uma falsa promessa, se a situação simplesmente voltar ao que era antes, com terroristas fazendo ataques na hora e nos termos que quiserem e ameaçando inocentes, árabes e israelenses, pela região”, afirmou Rice. Em vez disso, disse: “Temos de ser mais efetivos e ambiciosos.”
Rice não explicou, porém, como a meta será atingida. Apenas repetiu o que o presidente Bush vem dizendo nos últimos dias: “Os EUA renovam seu chamado pela soltura imediata dos soldados israelenses seqüestrados. E, ainda que Israel exercite o direito à defesa, instamos seus líderes a fazê-lo com o maior cuidado possível, para evitar que civis inocentes sejam feridos e para proteger a infra-estrutura civil.”
Soberania libanesa
Rice afirmou ainda que trabalhará para que o ambiente político permita que o Líbano reafirme sua soberania. “A meta da viagem é trabalhar com nossos parceiros para ajudar a criar condições que levem a um fim duradouro e sustentável da violência'”, disse. “Eu sei que não há respostas fáceis, assim como não há soluções fáceis.”
Rice, que saíra de um encontro com observadores da ONU que acabaram de voltar da região e que jantara com o secretário-geral Kofi Annan na quinta, disse ainda que passará por Roma, onde participará de uma conferência internacional sobre o Líbano com um grupo de países que pode ajudar o governo libanês: Arábia Saudita, Egito, França, Itália, Reino Unido e Rússia, além da ONU.
A secretária colocou pela primeira vez em palavras oficiais o que analistas vêm dizendo nos últimos dias: a saída diplomática e multilateral defendida pelo governo Bush tem menos a ver com convicções próprias do que com falta de opções.
Como teve de concordar o porta-voz de Rice, Sean McCormack, em entrevista anteontem, os EUA não conversam com os governos da Síria e do Irã nem com os grupos Hamas e Hizbollah, que junto de Israel protagonizam a crise. Sobra pouco o que fazer.
“A Síria sabe o que tem de fazer, e o Hizbollah é a fonte do problema”, disse Rice ontem. “O governo do Líbano tem de ser capaz de estender sua autoridade sobre todo seu território, e não é possível que o Sul do país seja um abrigo para grupos armados e não autorizados se firmarem e dispararem foguetes contra Israel.”
Rice descartou enviar tropas americanas ao conflito - em vez disso, ressaltou que o país trabalhará no âmbito da ONU e com países aliados para a mobilização de forças internacionais estabilizadoras “robustas” - e disse negociar com Israel a abertura de corredores humanitários aéreos e terrestres.
Indagada se ela não temia que a demora na ação dos Estados Unidos contamine a reação da população libanesa, Rice saiu pela tangente com a seguinte declaração: “OK, eu poderia ter entrado num avião e corrido de um lado para o outro, mas não teria ficado claro o motivo pelo qual eu estaria fazendo isso”.