O mundo foi pego de surpresa quando Israel decidiu atacar o Líbano, depois de ações do grupo terrorista Hizbollah, no último dia 12 de julho, em que dois soldados israelenses foram seqüestrados, oito morreram e quatro civis ficaram feridos. Mais um capítulo de um conflito que parece não ter prazo para acabar. Mas qual lado tem razão? Árabes ou israelenses? Para o professor de História e pesquisador em Comunicação Ney Vilela, ambos estão errados.
Para ele, não há legitimidade por parte de Israel, por conta da agressão onde morrem centenas de civis e onde se destrói a estrutura de outro Estado. “Existe a força”, disse. Da mesma forma, Vilela destaca que não há legitimidade por parte do Hizbollah, já que o grupo não representa o Líbano. “O Hizbollah é um grupamento religioso, radical, com interferências políticas”, salientou.
Autor do livro “Irmãos inimigos – Judeus e Palestinos lutam por Jerusalém”, Vilela afirma que, para entender melhor o que está acontecendo no Oriente Médio, é preciso analisar os últimos governos de Israel. “Nos últimos 30 anos quase todos os primeiros-ministros de Israel eram generais. E esses generais eventualmente podiam fazer negociações com grupos radicais, porque não tinham que provar força”, disse.
Por outro lado, de acordo com Vilela, o atual governo israelense, comandado pelo premiê Ehud Olmert, é fraco. “Ele chegou a primeiro-ministro em virtude da doença do Ariel Sharon. Em muitos anos é o primeiro premiê que não saiu do exército, assim como o ministro da Defesa de Israel. Então, o que acontece, essas pessoas não têm como negociar, acabariam demonstrando fraqueza”, frisou.
Outro aspecto apontado pelo professor como importante para entender o conflito é o pensamento dos israelenses a respeito da comunidade árabe. Segundo ele, o primeiro pensamento é ter paz, aceitando entregar um pouco de terra aos palestinos. A outra visão é o “Eretz Israel” ou “Israel Grande”, tese defendida pela maior parte dos generais, que consiste em ampliar as fronteiras do país para impedir ataques de radicais contra Israel. “A idéia do ‘Eretz Israel’ ficou muito mais forte a partir dos ataques aos Estados Unidos em 2001”, salientou.
O lado árabe
Ney Vilela ressalta que do ponto de vista dos países árabes, Israel é o inimigo comum. De acordo com ele, os líderes religiosos, principalmente do Irã, acreditam na possibilidade de construir um grande estado muçulmano, e para isso é preciso combater o inimigo dos árabes. “Então o Irã financia um grupo xiita muçulmano no Líbano, o Hizbollah, que também tem o financiamento da Síria. A Síria ainda acha que o Líbano pertence aos sírios”, disse.
O professor afirma que o Líbano é um país fragilizado e dividido, com 40% da população cristã, mais 20% de sunitas e druzos, e mais 40% de xiitas. “O Hizbollah não tem qualquer vínculo com o governo libanês. Israel considera que a grande preocupação territorial é ter uma faixa de 30 quilômetros dentro do território libanês, aonde não seja permitida a existência de pessoas ligadas ao Hizbollah”, frisou.
Vilela alerta para o crescimento da população xiita no Líbano, o que pode acirrar ainda mais o confronto com Israel. Segundo ele, quando isso ocorrer, o Líbano pode se tornar o que é atualmente o Iraque, ou seja, um país desfigurado. “Há um processo de ‘iraquização’ do Líbano. O Iraque tem metade da população xiita, mais 30% de sunitas e 20% de curdos, por isso é impossível estabilizar governo no Iraque. O Líbano pode ficar na mesma situação”, comentou.
Para ele, a única possibilidade de pausar o conflito seria colocar forças da Organização das Nações Unidas (ONU) na faixa de 30 quilômetros na fronteira entre Líbano e Israel. No entanto, para Vilela, mesmo essa medida é paliativa, pois não resolveria o problema. “Vai pausar o conflito e aí uma negociação pode ser feita. Pessoalmente, acho que a resolução do problema é difícil”, ressaltou.