Na eleição de 82 conseguimos com um industrial a doação de um luminoso circular, da altura de um pneu de trator, para uma tenda de umbanda, cujo pai-de-santo era um funcionário público, nosso conhecido.
Alguns dias depois fomos convidados para a inauguração. Na nossa comitiva havia dois cabos eleitorais muito jovens, que, durante o cerimonial, se mostraram receosos, cochichando e de olhos arregalados. O pai-de-santo repreendeu-os como na crônica de Manuel Bandeira:
- Quem entrou tem que se assujeitá!
As pessoas que já assistiram a uma festa de orixás sabe que o batucar dos bumbos e o giro das moças formam, ao lado do aspecto religioso, um traço cultural bonito! O pior foi no fim! Quando o caboclo convidou um de nossos “cabos” para receber um passe, o rapaz, alegando compromissos imediatos (que, sinceramente, ignorávamos quais fossem) sumiu rápido por uma porta lateral.
- Onde ele foi? – perguntei.
Mas o outro deu de ombros e nem se dignou a me olhar, conservando os olhos fixos no babalorixá, lá na frente. Depois da cerimônia o pai-de-santo nos agradeceu e acrescentou, em tom de quem dá um conselho:
- Óia, doutor. Às vezes tem ajutório que mais ‘trapaia” que ajuda!
E assim terminava, de modo não programado, a única visita que fizemos a uma Tenda de Umbanda. Mais tarde interpelamos o rapaz qual o motivo dele ter fugido da sessão, se foi de medo, ou alguma outra coisa. A resposta que podia ser considerada esfarrapada, a nosso ver tinha um fundo de realismo.
- Ah, será que ele não reparou em meu capacete? Todo mundo sabe que sou motoqueiro e não ando de ônibus! E vem o índio querendo me dar um passe!
Rui Bertoti